Lara Passini

Minibiografia
Lara Passini Vaz-Tostes é escritora e advogada, graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-graduada em Filosofia e Teoria do Direito pela PUC Minas. Atua profissionalmente na área jurídica, com experiência na elaboração de peças processuais, recursos e trabalhos consultivos. Na literatura, dedica-se especialmente à poesia, à crônica e à literatura infantojuvenil, explorando temas como memória, sensibilidade, identidade, silêncio e condição humana. É autora dos livros O Lugar que Não Existe (mas Sou Eu)e A Vigília do Sensível, além de outras obras em processo de edição e publicação. Seus textos já foram reconhecidos em concursos literários nacionais e internacionais, incluindo uma premiação em Portugal. Em sua escrita, procura transformar experiências íntimas em uma linguagem lírica, reflexiva e voltada à escuta do outro.
Texto Vencedor -
2ª Colocada
O Segundo Ovo
Abílio era dentista, o que já diz alguma coisa, embora não tudo. Há profissões que modelam o espírito; a dele, por exemplo, habituara-o à limpeza, à brancura e a uma fé talvez excessiva na utilidade da ordem. Vivia entre dentes escovados, instrumentos reluzentes e bocas alheias; não admira que acabasse supondo o universo uma vasta arcada suscetível de correção. Enganava-se, naturalmente. O universo tem mais podridão que cárie, e nem sempre se deixa restaurar.
Levantava-se cedo, alegre dentro dos limites permitidos a um homem sem gênio nem tragédia, e ia à cozinha preparar os seus ovos mexidos. Eram dois por manhã. Não três, porque a prudência lhe vedava excessos; não um, porque a economia do prazer também tem seu cálculo. Dois. Tinha-os contados. Compraria mais no dia seguinte. Esta previsão bastava-lhe para sentir-se, por alguns minutos, senhor da própria existência. É uma das ilusões mais difundidas entre os vivos.
Naquela manhã, que parecia prometida a uma mediania feliz, Abílio tomou a frigideira, acendeu o fogo e quebrou o primeiro ovo. Excelente. Um ovo de boa compostura, desses cuja casca inspira confiança e cujo conteúdo parece ter assinado previamente um pacto com a decência. Quebrou o segundo — e aqui começou o desastre, não grande aos olhos da história, mas gravíssimo para o nariz e a imaginação do nosso dentista.
Saiu-lhe um cheiro torpe, um bafo de estrebaria, de matéria vencida, de natureza sem o verniz da embalagem. A gema apresentou-se parda, suspeita, moralmente comprometida. Abílio recuou com a frigideira diante de si, como se houvesse surpreendido na cozinha uma infidelidade. E, em certo sentido, surpreendera. Nada fere tanto os homens metódicos como a traição das coisas inanimadas. Esperam delas uma lealdade que não exigem nem dos amigos.
Jogou tudo fora. Lavou a frigideira com energia. Tornou a cheirar. Lavou de novo. O cheiro persistia, ou parecia persistir; e em matéria de nojo, pouco importa a metafísica. O fato é que perdeu o café da manhã. Como não tinha outros ovos, comeu dois pães de
forma secos, sem manteiga, sem afeto, sem dignidade. O leitor talvez ache excessivo que dois pães possam adquirir caráter ofensivo.
Engana-se. Há alimentos que, em certas circunstâncias, deixam de ser comida para tornar-se humilhação mastigável.
Abílio saiu de casa diminuído. Morava a um quarteirão do consultório, mas caminhou como um homem a quem a vida, sempre dada a esses pequenos sarcasmos, resolvera negar o essencial. Sentia-se fraco. Doía-lhe a cabeça. O pescoço endurecera. O corpo todo, esse adulador das ideias fixas, cuidava agora de lhe fornecer sintomas compatíveis com a indignação. Convenceu-se depressa de que a falta de seus ovos mexidos lhe desorganizara o organismo inteiro. O homem raramente perde ocasião de transformar um capricho em diagnóstico.
Entrou no consultório e tentou compor o rosto profissional. Veio o primeiro paciente. Sentou-se o homem, abriu a boca, exibiu ao dentista seus dentes limpos, corretos, pacificamente brancos. Abílio contemplou-os com uma espécie de melancolia rancorosa e pensou, não sei por que transposição imbecil do espírito, que todas as gemas deviam ser como aqueles dentes: claras, íntegras, incapazes de corrupção. Não me peçam lógica; peçam apenas coerência psicológica, que é uma forma inferior de razão, mas muito mais frequente.
Foi justamente nesse ponto — entre a gema ideal e o dente real — que sua mão falhou. O instrumento feriu a gengiva do paciente. O sangue apareceu, escandalosamente vermelho, como fazem questão de ser os pequenos desastres quando desejam humilhar alguém.
Abílio pediu desculpas com um excesso que excedia o caso. Pediu-as mais uma vez. E outra. Se o paciente tivesse um mínimo de espírito, concluiria que não se tratava de um simples erro técnico, mas da confissão difusa de uma existência inteira. Há homens que, ferindo uma gengiva, pedem perdão também pela infância, pelo clima, pelo Império Romano e pela indiscrição dos ovos. Abílio era um desses. A culpa, em sua alma, reproduzia-se por divisão celular.
Concluído o atendimento, ficou sozinho na sala, que lhe pareceu contaminada. O cheiro do ovo podre estava ali — ou antes, estava nele, o que é muito pior. Borrifou aromatizador com a pressa aflita dos que imaginam resolver com lavanda os problemas da consciência. Inútil. O odor persistia. Persistia no ar, nas luvas, na parede, no jaleco, na alma. O nojo, uma vez bem instalado, adquire ubiquidade. Deus está em toda parte, dizem os teólogos; o ovo podre, ao menos naquele dia, também.
Resolveu não atender mais ninguém. Estava tonto. Ou quis estar. Em certas ocasiões, o corpo é um excelente dramaturgo e oferece à alma o cenário que ela pede. Foi ao posto de saúde. Esperou. Não me deterei muito sobre a espera, porque todos a conhecem: é a forma civilizada do suplício. Depois de alguns minutos numa cadeira de plástico, qualquer criatura já se sente autorizada a morrer de alguma coisa.
Chamado enfim, Abílio expôs ao médico a sua catástrofe em termos talvez mais discretos do que o seu íntimo exigia, mas suficientemente graves para pedir legitimação. O médico o examinou e, para desgosto do paciente, nada encontrou. Nenhuma febre notável, nenhuma alteração memorável, nenhuma tragédia que merecesse carimbo. Limitou-se a recomendar boa alimentação: verduras, legumes e, por fim, com a inconsciência tranquila dos profissionais, ovos.
Ao ouvir a palavra, Abílio sentiu uma lágrima escorrer. Não dessas abundantes, que solicitam lenço e piedade; uma lágrima breve, quase burocrática, mas nem por isso menos sincera. Pensou, então, em abandonar para sempre o alimento amado. Trocar os ovos por frango. A resolução pareceu-lhe austera, quase heroica. O leitor sorrirá, e com razão. Mas não despreze as heroïcidades domésticas; são as únicas ao alcance da maioria.
Saiu do posto sem consolo. Padecer sem diagnóstico é uma forma moderna de desamparo. Ao menos o doente com nome de doença pode odiar alguma palavra latina; Abílio não tinha nem isso. Só lhe restava a sensação difusa de ter sido traído pela manhã e desautorizado pela medicina.
Chegou em casa e olhou a cozinha com ressentimento. A frigideira, a pia, o fogão — tudo lhe pareceu cúmplice. Ficou alguns segundos imóvel, como se esperasse que algum objeto lhe pedisse desculpas. Nada. As coisas, quando muito, quebram-se; nunca se arrependem.
Foi então que sucedeu o inevitável. Porque Abílio podia renunciar à glória, ao heroísmo, talvez até a certos afetos; mas não aos ovos. Saiu de novo. Comprou dois dos mais bonitos, escolhendo-os com aquele escrúpulo ridículo e comovente com que alguns homens escolhem esposas, chapéus ou princípios. Trouxe-os para casa, acendeu o fogo, pôs a frigideira, respirou fundo e quebrou o primeiro: perfeito. Quebrou o segundo: irrepreensível.
Nenhum cheiro torpe. Nenhuma cor duvidosa. As gemas abriram-se amarelas, luminosas, honestas como retratações tardias. Abílio sentiu então uma dessas reconciliações que, embora não valham uma página da história universal, salvam inteiramente uma criatura. Mexeu os ovos com cuidado quase religioso. O aroma subiu bom, simples, doméstico. E o seu espírito, que pela manhã se esfacelara por tão pouco — como fazem todos os espíritos pouco exercitados no essencial —, começou a recompor-se.
Comeu devagar. Voltou-lhe a força. Cedeu a dor de cabeça. Amoleceu o pescoço. Serenou a alma. Teria sido efeito da proteína? Da imaginação? Da vitória moral sobre a perfídia da casca? Não importa. Há curas que não pedem teoria, apenas repetição.
Depois deitou-se e dormiu.
Sonhou com ovos enormes, belos, incorruptíveis, ovos de uma pureza quase metafísica, capazes não apenas de alimentá-lo, mas de garantir-lhe essa confiança mínima e indispensável sem a qual nenhum homem atravessa a própria mediocridade com elegância.
Eis o caso de Abílio.
Ria dele, leitor, mas ria baixo. Quase todos nós dependemos, para não desabar, de alguma coisa tão pequena e tão ridícula quanto o segundo ovo
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