Gisela Emanuelli

Minibiografia
Gaúcha de Santa Maria, autora dos livros Contos de Fome e de Sangue e a Horda Contos Errantes. Explora universos fantásticos de vampiros, lobos, lendas, wiccas em abordagem neogótica e simbolista, participando com seus contos em mais de 30 antologias no Brasil e em Portugal. Recebeu 1ª colocação no Prêmio do Governo Federal Antologia 200 Anos de Independência. Em 2025, sagrou-se 2ª colocada no Prêmio Poiesis de Literatura, Top 5 no Prêmio Laurel de Literatura, Semifinalista no Prêmio Outono em Vários Tons da editora Typus e Destaque Literário Top 5 da Academia Internacional de Literatura Brasileira. Semifinalista no Prémio internacional Pena de Ouro em 2020 e 2021 da Casa Brasileira de Livros. Semifinalista no Prêmio Microconto de Ouro da Casa Brasileira de Livros em 2021. Agraciada com o Prêmio “Livro do Ano 2022” pela Academia Brigadiana de Letras. Acadêmica Correspondente da Academia Santa-Mariense de Letras. Associada da AGES e Acadêmica da AILB. Membro da Comissão Avaliadora do 46º Concurso Literário Felippe d´Oliveira. Mediadora na 40ª Feira do Livro de Caxias do Sul. Graduada em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria, Mestre em Integração Latino-americana pelo MILA/UFSM, pós-graduada em Altos Estudos em Defesa, pela Escola Superior de Guerra, servidora pública federal, autora de diversos artigos jurídicos no Brasil e exterior
Texto Vencedor -
2º Colocado
O Vampiro de Montparnasse
Um grito de horror varou a neblina. As ruas de Paris recém acordavam naquela manhã de agosto de 1848. Era por volta das seis horas quando o coveiro do cemitério de Montparnasse iniciou sua ronda matutina e encontrou o túmulo de uma recém sepultada mademoiselle, aberto e o cadáver violado.
Em meio a névoa, podia antever o vestido branco da moça rasgado do peito até a barra. No abdômen do lânguido corpo, via-se uma área oca e escura. Ao aproximarse, descortinava-se a horripilante verdade: o malfeitor extirpara os intestinos da vítima e, aparentemente, violara-a sexualmente.
1. Perturbações
Naquele ano, a França passava pela primavera dos povos, que vinha sendo sufocada pela Segunda República. As notícias dos jornais eram já enfadonhas e repetitivas, a respeito das insurgências contra o governo republicano, baixas das Jornadas de Junho e apoio dos trabalhadores, campesinos e burgueses ao nome de Luís Napoleão Bonaparte para presidente. A notícia escatológica no cemitério trouxe renovação às vendas dos jornais e a população passou a consumir mais notícias de profanações do que a respeito do próprio destino da França.
Apesar de provocar muita especulação, um silêncio comovente era sentido pelas ruas sussurrantes da capital francesa. Era estarrecedor o abominável destino reservado para aquela jovem. Não se falava outra coisa, as pessoas queriam saber a autoria de tamanha ousadia, e qualquer homem poderia ser um potencial suspeito.
Na noite daquele mesmo dia, alguém bufava sobre a terra revolta em um cemitério parisiense. Suas mãos mergulhavam na terra úmida e cavavam. O suor escorria pelas mechas de cabelo que pendiam de sua testa, as pontas de seus dedos em carne viva, mantinham sob as unhas as lembranças da noite anterior. Um som oco prenunciou a campa fazendo o coração daquele homem vibrar entusiasmado. Uma madrugada inebriante desenrolava-se para ele.
Amanheceu e a Garde Municipale estava ocupada com o vilipêndio no cemitério de Montparnasse, quando adentrou na delegacia um homem esbaforido, com olhos aterrorizados e mãos trêmulas.
— É, é, é... é o Cemitério Père-Lachaise... — gaguejou.
Bastou para que uma tropa fosse deslocada até o vigésimo Arrondissement onde os novos fatos aconteceram. Uma vez lá, os gendarmes depararam-se com aquela cena grotesca. O mesmo modus operandi ocorrera em dois túmulos do cemitério e, mais uma vez, corpos de duas jovens recentemente sepultadas tinham seus intestinos extirpados e nódoas de sêmen visíveis junto aos cadáveres retirados de uma fossa comum.
O Père-Lachaise era um cemitério bastante distante do centro e destinado às pessoas de menor poder aquisitivo. Havia passado por uma recente ampliação devido às
insurreições parisienses, assim, suas terras estavam reviradas em razão de covas novas e muitos corpos não eram devidamente identificados. A necessidade de garantir
sepultamentos rápidos para evitar pestilências impunha medidas rápidas. As mocinhas recém-descobertas faziam parte dessa estatística, pobres, não identificadas, mortas no
contexto de alguma rebelião. O fato é que elas não passariam de corpos aviltados e não reclamados.
A polícia juntou os indícios do corpo de delito. Acreditava que a indigência das vítimas não causaria comoção igual à que provocou o evento do Montparnasse. Os jornais, entretanto, logo noticiaram o mais recente ataque. A imprensa concentrou toda sua tinta e tipografia nas ocorrências sinistras no Père-Lachaise e, mal secaram as páginas, outro corpo fora descoberto na necrópole Montparnasse. Era um acinte! O criminoso parecia zombar da capacidade da polícia e dos sentimentos da população parisiense.
2. Autoria
Como seria para uma família enterrar sua filha e saber que a polícia não conseguiria manter a inviolabilidade do túmulo e a incolumidade do corpo? Tal preocupação concorria com as agitações nas ruas da capital. Enquanto esses fatos inusitados continuassem a pontilhar algumas famílias, não passariam de curiosidade diante da deflagração de combates entre os gendarmes e os revolucionários contra a Segunda República. “O que poderia ser mais danoso?”, perguntava-se a polícia. Os cemitérios, afinal, tinham administração própria, poderiam esforçar-se para aumentar a segurança. A atuação diante das convulsões políticas era a prioridade.
Uma semana depois, durante uma quieta e tensa madrugada, cinco corpos em Montparnasse foram desenterrados. Na manhã seguinte, a chocante visão das jovens mulheres nuas e evisceradas davam matéria para os diários suplementares, com desenhos romantizados a ilustrar as páginas. O crime de vilipêndio de cadáver apenava o autor com apenas um ano de reclusão. Nada mais. O que chocava era a dramaticidade, a falta de uma explicação e a reiteração incansável.
Lia-se no jornal do dia 12 de agosto de 1848:
“O cemitério de Montparnasse foi, na noite anterior, teatro de uma horrível profanação e, pelo que supomos, os detalhes monstruosos que vamos relatar teriam ocorrido quando a tempestade estourou com força e sob o brilho fúnebre dos relâmpagos...”¹
E seguia, narrando as condições em que foram encontradas as covas e comentando o sacrilégio cometido pelo autor de tão medonho ritual. Para executá-lo, dizia, era necessário que o autor monitorasse sepultamentos de moças jovens, além de ser um hábil invasor para adentrar em cemitérios sem ser notado durante as madrugadas. Era preciso também agir com discrição para abrir mausoléus e caixões, retirar corpos, mutilálos e aviltá-los. Demandava, sobretudo, força, vitalidade e estômago.
Teses sobre a autoria não faltavam. Exumar cinco corpos de uma vez era coisa de algum doente, de um louco fugido de um sanatório. Havia ainda quem defendesse ser
um animal monstruoso e fantástico e muitos acreditavam que somente um ser sobrenatural poderia causar aquilo.
A população, então, converteu-se em agente investigativo. Homens mais aventureiros visitavam cemitérios em busca de emoções estarrecedoras, na esperança de flagrar o monstro. Sem ter a quem nominar como suspeito, passaram a atribuir os casos ao macabro Vampiro de Montparnasse.
Em meio ao frenesi da multidão parisiense, um homem caminhava remoendo pensamentos.
— Não sou um vampiro... não. Não sou... Sou um vampiro? Um vampiro? — roendo a unha do polegar. — Sou, sou. Sou vampiro. Sou vampiro. — Abriu um sorriso ocultado por sua cabeça baixa. — Não! Não sou! Eu não sou! Não sou vampiro! Vampiro, vampiro... — Caminhava pela calçada, tentando disfarçar seu delírio mental. — Ãhm... umm... sou um amante. Isso! Isso, sou um amante, um confeiteiro do amor, um alquimista, um chef d’amour... É... É isso... É o que sou — seguia com um semblante mais otimista.
Ergueu a cabeça, respirou fundo e soltou um suspiro de alívio e romance.
— Preciso ter mais cautela. Vão acabar me descobrindo...
Tímido, reservado e só, o homem vivia nas imediações da Place Maubert, no quinto Arrondissement de Paris, palco de diversas execuções na história da França. Tivera uma vida de aventuras e agora estabelecera-se discretamente na vida da cidade. Tinha algum verniz social, todavia, suas preferências eram demasiadamente inaceitáveis para ter amigos. Na verdade, julgava-se um benfeitor e não sabia como tudo acontecia exatamente, sentia um desvario, uma compulsão, um desejo.
Prudentemente, decidiu diversificar suas invasões. O aristocrático Cemitério de Passy parecia-lhe ideal para as suas próximas investidas e ali atacara uma meia dúzia
de vezes. Dado que o cerco se fechava, alternou para o novíssimo cemitério de Batignolles, contudo, a imaturidade da necrópole deixava-o desguarnecido, eram poucos
mausoléus e poderia ser facilmente visto no campo santo. Batignolles foi, assim, excluído definitivamente da lista e Montparnasse, o mais povoado, sedimentou-se na preferência de Bertrand.
Durante os seis meses seguintes, até que o inverno congelasse os corações sensíveis aos fatos, foram várias dezenas de vilipêndios sem que a gendarmerie conseguisse dedicar-se a descobrir quem era o famoso, porém desconhecido, Vampiro de Montparnasse. O volume de exumações tornou os eventos com cadáveres de moças francesas um assunto paralelo na imprensa. A força policial continuava mais dedicada a
debelar as revoltas civis e o encargo da segurança de túmulos recaía sobre os próprios cemitérios.
3. Confissão
Em dada madrugada, um tiro ecoou na penumbra de Paris e o alvo do projétil ingressou cambaleando no hospital militar Val-de-Grace. Era um homem em muito mau estado, pálido e fraco, sangrando no abdômen. Vinha curvado, segurando a parte ferida. Foi imediatamente atendido e levado à cirurgia. Esse homem era o cabo cozinheiro do refeitório do exército francês Frérédic Bertrand.
Após a cirurgia, já recolhido ao quarto, o major médico que o atendeu passou a questioná-lo.
— Bom dia, cabo, sente-se bem? Lembra-se o que aconteceu?
O nervosismo e os valores militares impediam que Bertrand mentisse. Não havia como inventar uma história para aquele tiro. Confessou ali mesmo, na cama do hospital, o que toda a França queria saber. Com os olhos fixos em suas mãos tensas, disse:
— Major, eu... definitivamente, não sei o que acontece comigo... não sei explicar. Meu coração palpita violentamente e sou arrebatado até elas. Sinto amor por
todas elas. Eu as tiro da escuridão... Passo as mãos em seus cabelos, beijo-lhes as faces e bocas ainda carnudas e macias. — Fréderic tremia nervosamente. — Enterneço-me de
vê-las tão entregues ao meu amor. Abraço-as forte contra meu peito, Major... Um abraço apertado e demorado. Não preciso que elas falem, não há palavra que defina esse amor.
Sei que apreciam... Entenda, por favor, Major, estão sós, abandonadas, geladas, precisam de mim! Eu as aqueço e lhes faço companhia. Ficamos horas abraçados até a chegada do
amor, quando não me seguro, entro em êxtase e me alivio em uma petite mort2.
— Bertrand, Bertrand... Isso não está bem, homem! E os intestinos? Por que extirpas os intestinos das moças, Bertrand?
Após uma breve pausa, um tanto surpreso pela indagação, revela:
— É que eu estava precisando de tripas, sabe? Tripas para as linguiças que faço na cozinha do meu Regimento no Exército.
%2009_03_18_395d971d.jpg)