Abel Ferreira

Minibiografia
Jurista e escritor, Abel Ferreira é mestre em Direito e autor de obras acadêmicas na área. Nascido em Fortaleza e radicado em Brasília, une sua bagagem de duas décadas na auditoria federal — com passagens pela ONU e pelas cinco regiões do país — a uma ficção que disseca a relação entre o homem e o sistema. É autor do livro de contos Ilusões em Tramitação, pela editora Litteralux. Sua escrita breve rendeu-lhe o posto de semifinalista (2025) e vencedor (2026) no Prêmio Nacional Poiesis, além de finalista no certame Outono em Vários Tons em 2025. Ainda em 2025 foi vencedor da 1ª edição do Prêmio Nacional Poiesis de Literatura, na categoria Microcontos. Em 2026, foi selecionado para as coletâneas Realismo Social e Terror e Suspense da editora Palavra Ferida, ambas com nota máxima pelo júri, e para a 4ª coletânea do PodLetras.Ainda nesse ano, foi um dos finalistas na categoria Romanceno Prêmio Literário Verão de Histórias, da editora Typus.
Texto Vencedor -
2º Colocado
A Intervenção
Felipa Santos acordou antes do alarme. O silêncio do apartamento parecia uma sala de espera. Na mesa, uma caneca esquecida; na geladeira, o bilhete do doutor: “Consulta às 14h. Conversamos.”
No espelho, a superintendente ajustou a gola, reduziu o brilho do batom, confirmou o contorno do rosto. O telefone vibrou: memorando do gabinete convocando reunião em Brasília com todos os superintendentes regionais. Pauta ampla, tom neutro. A neutralidade, às vezes, é o mais ruidoso dos anúncios.
MEMORANDO CIRCULAR Nº 047/2026-GAB/SUBSEC
DE: Gabinete do Subsecretário
PARA: Superintendentes Regionais
ASSUNTO: Convocação para Reunião Extraordinária de Alinhamento Estratégico
1.Ficam os Senhores Superintendentes convocados para a Reunião Extraordinária de Alinhamento Estratégico, a ser realizada na sede deste Ministério, em Brasília-DF, em dia e horário já anteriormente informados.
2.A pauta versará sobre a necessidade de otimização dos processos e a coesão das diretrizes institucionais, visando a estabilidade sistêmica e a gestão de riscos operacionais.
3.Dada a relevância dos temas a serem tratados, a presença de todos os titulares é indeclinável.
— Você vai hoje? — perguntou o marido, da porta, de jaleco pendurado no braço.
— Vou. Todos vamos — respondeu, sem olhar.
— “Todos” é sempre um modo educado de te levar sozinha.
Ela repassava mentalmente os números de sua regional, a convocação para a "Reunião Extraordinária de Alinhamento Estratégico", assinada pelo Subsecretário Guilherme, soava menos como um convite e mais como uma intimação. A data e a hora, estrategicamente marcadas para uma sexta-feira à tarde, denunciavam a natureza do evento.
Guilherme era um eco distante de uma traição antiga, um sussurro nos corredores que ela ouvira anos atrás.
Ela olhou para o anel de casamento em seu dedo, agora frouxo. O ouro parecia opaco sob a luz fria do quarto.
“Você não precisa de mim. Você precisa de um público.”
A voz de seu marido ressoava em sua mente misturada ao som distante do tráfego da Esplanada. O processo seria lento e doloroso.
“Eu sou um cirurgião, Felipa! Eu abro o peito das pessoas, eu salvo vidas! E você me trata como um estagiário porque eu não entendo a diferença entre a Portaria 47 e a Instrução Normativa 12! O seu trabalho é sobre papéis, o meu é sobre carne e sangue!”
“Não é sobre a Portaria. É sobre a sua recusa em ver que o meu trabalho é tão importante quanto o seu. Você não queria uma esposa, você queria uma plateia que te aplaudisse. Eu não sou sua plateia.”
“Você é demais, Felipa. Demais para mim, demais para essa casa, demais para a vida que eu queria.”
“A advogada vai enviar os novos termos hoje. Acho melhor você assinar, Felipa. Sempre foi boa em assinar coisas.”
Ela retirou o anel e o guardou na carteira, ao lado do crachá de identificação. A dor era um peso familiar, um lastro que a impedia de flutuar na vaidade. A solidão era o preço da sua ascensão. A burocracia e o casamento, pensou com amargura, eram ambos sistemas de poder, e em ambos ela havia se tornado a ameaça.
***
A sala de reuniões no Ministério era um círculo de carvalho escuro e vidro fumê, projetada para que a luz natural nunca revelasse completamente as intenções. Doze superintendentes regionais estavam dispostos em torno da mesa.
Guilherme entrou por uma porta lateral, seguido por dois assessores de expressão glacial. O homem que outrora fora descrito por Alberto como tendo “ombros caídos e um bigode que carregava o peso de decisões impopulares” agora irradiava uma autoridade polida. O subsecretário era o cargo, e o cargo era ele.
— Agradeço a presença de todos e todas. O objetivo desta convocação, como sabem, é o Alinhamento Estratégico. Nosso Ministério não pode se dar ao luxo de desalinhamentos em um momento tão crucial para a estabilidade fiscal e a imagem institucional. A sociedade espera de nós unidade e coerência.
Ele fez uma pausa calculada, varrendo a sala com um olhar que se demorou em Felipa, mas sem fixá-la, como se ela fosse apenas um ponto na paisagem.
— Em particular, precisamos discutir a gestão de riscos em algumas regionais. A excelência técnica é desejável, mas a aderência à diretriz central é o que garante a coesão do sistema. A autonomia, neste nível, deve ser exercida com responsabilidade política.
Felipa sentiu o golpe, sutil, mas preciso. Ele não a nomeou, mas todos sabiam. A regional dela era a única que, por vezes, ignorava as "sugestões" de Brasília.
O Superintendente de São Paulo, um homem corpulento chamado Barreto, tossiu, quebrando o silêncio com um som seco.
— Subsecretário, a regional de Felipa tem apresentado os melhores resultados. Se há desalinhamento, é um desalinhamento que funciona. Os números falam por si.
Guilherme sorriu, um sorriso contábil, como quem já havia vencido a discussão antes que começasse.
— Agradeço a observação, Barreto. Mas o que é sucesso para um, pode ser risco sistêmico para o todo. Felipa, sua regional tem um índice de não-conformidade política preocupante. Seus relatórios são tecnicamente impecáveis, mas geram instabilidade no nosso ecossistema de governança. Às vezes, um membro doente precisa ser... isolado, para o bem do corpo todo.
Felipa endireitou a postura, a cadeira rangendo um protesto mudo.
— Subsecretário, se por "não-conformidade" o senhor se refere à minha recusa em classificar como "detalhes operacionais" o desvio de verbas que sugeriu ignorar no último relatório, então sim, minha regional é politicamente não-conforme. Não confunda o ecossistema com o seu jardim, que pode ser controlado, podado, onde apenas as flores que você aprova podem crescer. Um ecossistema é selvagem, diverso e se regula por leis naturais, não por capricho de um jardineiro. A lei que aplico não é minha; é uma lei natural da administração.
A sala estremeceu. A verdade fora exposta sobre a mesa.
Guilherme manteve a calma, como se a interrupção fosse um mero ruído, mas a mão que ajustou o microfone tremeu por uma fração de segundo.
Enquanto observava Felipa defender-se com uma coragem que ele já não possuía, Guilherme sentiu um gosto amargo de reconhecimento.
— Não é pessoal, superintendente. É estrutura. A força faz o que pode. As unidades aceitam o que devem. Há vinte anos, pensei como você. Acreditei que a verdade e a lei eram absolutas.
— Minha interpretação é a lei, Subsecretário. E a eficiência administrativa não pode ser o eufemismo para a cumplicidade. A rigidez é o que impede o colapso.
O telefone vibra. Mensagem dele: “Consegui folga no feriado. A gente conversa sobre a separação com calma.”
Ela responde: “Sem feriado. Hoje.” Apaga. Digita: “Volto tarde.” Envia. As frases certas são as que não foram.
A Superintendente do Sul, Helena, uma mulher mais velha, tentou um contraponto:
— Subsecretário, os resultados da Felipa em combater a corrupção de baixo clero são notórios. Ela recuperou milhões para os cofres públicos.
— Recuperar é ótimo. Mas a que custo? — Guilherme espalhou as mãos, num gesto de falsa perplexidade. — Desgaste político? Paralisia administrativa em municípios-chave?
Ele se voltou novamente para Felipa, seu olhar agora direto e desafiador.
— Felipa, sua superintendência se tornou um ponto de instabilidade. E instabilidade, no nosso contexto, é um risco que não podemos correr.
***
O diálogo seguiu, um balé de palavras onde Guilherme usava a burocracia como um chicote, e Felipa, a lógica como um escudo. Ele citava portarias e instruções normativas com a precisão de um atirador, enquanto ela respondia com o espírito da lei e os resultados concretos de sua gestão.
Alguns superintendentes, como Barreto e Helena, começaram a intervir, defendendo Felipa com argumentos técnicos, mas com a voz já trêmula.
— A intervenção na regional de Felipa seria um sinal desastroso para a moral do corpo técnico — disse Helena. — Estaríamos punindo a competência e incentivando a mediocridade.
Guilherme sorriu, vitorioso.
— Não punimos, Helena. Apenas realocamos. A competência, sem alinhamento, é um vetor de desordem. A ordem, neste Ministério, é a nossa prioridade.
Ele então decretou um intervalo de quinze minutos, com a sugestão de que todos "refletissem sobre a importância da unidade".
Felipa se levantou, sentindo o peso dos olhares.
— Felipa, você foi brilhante — disse Barreto, olhando para o relógio. — Mas ele está irredutível. E ele tem o Ministro.
— Ele não está irredutível, Barreto. Ele está certo sobre o poder que tem. E vocês estão certos sobre o medo de vocês.
Helena sussurrou, a voz embargada: — Ele me ligou ontem. Disse que a próxima regional a ser auditada seria a minha. Mencionou um "desalinhamento" no último relatório de despesas.
Felipa compreendeu. Ela se afastou, indo para a janela. Lembrou da última briga em casa: "Eu queria alguém que voltasse para casa e não trouxesse o Ministério inteiro na cabeça.”
A ironia era que ele havia se sentido ameaçado, assim como Guilherme. Ambos queriam que ela fosse menor, mais controlável. Ela voltou para a sala, pronta para a segunda parte.
***
Guilherme retomou a reunião com a mesma calma, mas com um brilho nos olhos que denunciava sua certeza.
— Retomando. A proposta de intervenção na regional de Felipa, com sua destituição e realocação para um cargo de assessoria técnica em Brasília, visa a estabilidade do sistema. Esta é uma medida de gestão de riscos, não de punição.
Ele olhou para Barreto, que agora parecia um homem menor, curvado sobre a mesa.
— Barreto, qual a sua posição final sobre a proposta?
Barreto pigarreou, evitando o olhar de Felipa. O som era oco.
— Subsecretário… analisando de forma técnica, desprovida de paixões… um alinhamento mais próximo com o gabinete pode trazer… sinergias.
Guilherme sorriu, satisfeito.
— Obrigado, Barreto. Helena? A Sra. também pareceu preocupada com a situação.
Ela corou, evitando o olhar de Felipa.
— Eu… acredito que o Subsecretário tenha um ponto. A unidade da instituição é primordial. Talvez… talvez um apoio pontual seja bem-vindo.
Um a um, o coro de superintendentes se dobrou. O medo havia vencido a razão. Felipa estava sozinha. A derrota era formalizada.
Guilherme sorriu abertamente, a máscara de polidez finalmente caindo para revelar o triunfo.
— Felipa, a votação é unânime. Lamento.
Silêncio.
Ele se inclinou sobre a mesa, o opressor no auge de seu poder.
— O procedimento, como você agora sabe, é a arma mais letal.
— Você está certo Guilherme. O forte faz o que pode. Mas você não é o forte. É apenas o medroso.
A sala emudeceu. Guilherme franziu a testa.
— O que está dizendo?
— Não é o sistema que você está defendendo, Subsecretário. Você não é um líder.
Ela apontou para os superintendentes, que se encolheram.
— Vocês… — sua voz quase quebrou — Parabéns. Ganharam a proteção do mais forte. Por hoje.
— Basta! A reunião está encerrada. A proposta de intervenção será formalizada em portaria nos próximos dias. Guilherme olhou para as cadeiras ao seu redor e sentiu o peso do comando.
Felipa não recolheu os papéis. Eles já não lhe pertenciam. Eram artefatos de um jogo que terminara. Com uma suavidade que surpreendeu a si mesma, tocou a carteira
onde guardara o anel, como se certificando de que ambas as rendições estavam consolidadas.
Ao se levantar, não o fez com o ímpeto de quem abandona uma batalha, mas com a lentidão solene de quem presencia um rito de passagem. Sua postura era ereta não por desafio, mas por um alinhamento interno finalmente alcançado. A sala a observava, mas seus olhos já não a viam; ela atravessava um umbral invisível.
Ao cruzar a porta, o corredor infinito do ministério se abriu como um deserto. O silêncio, antes opressor, transformou-se em espaço. Ela caminhou, e cada passo era um peso que se desprendia. A carreira, o cargo, o casamento — eram todas estruturas que ela havia habitado, mas que, no fim, não a continham.
Alguns se perdiam em seus corredores. Outros aprendiam a habitá-los.
A intervenção fora decretada, o casamento dissolvido. Do lado de fora do edifício, o céu de Brasília estava estranhamente límpido. Felipa respirou. O ar não tinha o cheiro de papel ou desilusão; não tinha cheiro algum. Era a matéria pura do vácuo. Eles haviam levado tudo o que podiam tirar. E, ao fazê-lo, deixaram para trás apenas o que era verdadeiramente seu: o vazio silencioso e soberano de quem não deve mais nada.
PORTARIA Nº 112/2026-GAB/SUBSEC
O SUBSECRETÁRIO, no uso das atribuições,
RESOLVE:
Art. 1º Decretar, ad referendum do Ministro de Estado, a intervenção administrativa na Superintendência Regional Central, a contar da data de publicação desta Portaria, pelo prazo de 90 (noventa) dias, prorrogável por igual período.
Art. 2º Exonerar a servidora FELIPA DE SOUSA SANTOS do cargo em comissão de Superintendente Regional, código DAS 101.5.
Art. 3º Nomear a referida servidora para exercer o cargo em comissão de Assessora Especial junto ao Gabinete desta Subsecretaria, código DAS 102.1, com vistas ao aproveitamento de sua notória expertise técnica em projetos de modernização e governança.
Art. 4º O Interventor será designado no prazo de até 5 (cinco) dias da entrada em vigor desta Portaria.
Art. 5º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
Publique-se. Cumpra-se.
Subsecretário Guilherme de Almeida Tavares
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