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Ataíde Menezes

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Minibiografia

Ataíde Menezes nasceu em Caruaru, Pernambuco e vive em Aracaju, Sergipe, onde exerce a delegacia de polícia civil e a crônica - duas formas, como ele mesmo diz, de investigar o mundo.

É autor de Três perus metafísicos e outras crônicas (Editora Urutau, 2025). Coautor de Código Penal em Crônicas (Editora Juspodivm), atualmente na terceira edição. Presidiu a comissão avaliadora do Primeiro Concurso Literário Nacional dos Delegados de Polícia. Como cronista, participa de concursos literários desde 2021, sendo vencedor, finalista e destaque em vários deles.

Texto Vencedor - 

1º Colocado

A Novíssima Biblioteca de Babel

Nada de pânico – o mundo só vai acabar pros

que acabarem.

(Millôr Fernandes)

Deus, finalmente, nos extinguiu. Não vou mencionar os detalhes, pois eles são cruentos, viscerais. Basta imaginar, leitor, o Apocalipse de São João escrito em coautoria por Rubem Fonseca e Augusto dos Anjos.

Merecemos. Testamos a paciência divina desde aquele episódio envolvendo a árvore do conhecimento do bem e do mal. Depois, com nossas vilanias e delírios de grandeza, provocamos o Criador com a tenacidade de um pernilongo. Mas a gota d’água mesmo foi a Inteligência Artificial. Substituímos o bezerro de ouro pela divindade de silício, em cuja homenagem sacrificamos, no altar da conveniência e com volúpia crescente, o nosso maior dom, a capacidade de pensar. (Tudo bem, talvez eu tenha exagerado no desastre, mas foi pelo bem da crônica.)

Não à toa, portanto, o Misericordioso nos deletou. Até da lixeira.

Humanidade extinta, perguntavam no Éden: haveria Adão e Eva versão 2.0? “Vou pensar no assunto. Antes, preciso descansar um pouco”, falava Deus.

Então resolveu tirar não um dia de folga, mas um éon sabático.

Passava o tempo numa descomunal biblioteca das obras escritas pela humanidade. Só livros físicos, à moda antiga, salvos do fogo numa espécie de Fahrenheit 451 às avessas. Tratava-se de uma coleção quase tão grande quanto a de Umberto Eco, que tinha alguns exemplares em duplicata. O Indefectível queria estudar Sua criação anterior para — o leitor, ou o que sobrou dele, me perdoe a blasfêmia — não cometer outra mancada. Lia e relia aquele sem-fim de publicações. Encontrando algo mais interessante, fazia anotações na página (“Nietzsche está morto!”, teria registrado ao ler A Gaia Ciência).

Possessivo, encolerizava-se quando falavam em empréstimo de exemplar. Certa vez, São Lucas Evangelista pediu um Mia Couto, As pequenas doenças da eternidade. Deus, que havia acabado de ler Sartre, largou o desaforo: “Peça lá no inferno, que são os outros, incluindo você!” O Onisciente tinha suas razões, pois São Jorge nunca lhe devolvera um box de Dom Quixote, capa dura, ilustrações de Gustave Doré.

No centro da biblioteca, preso a um pedestal, havia um boneco de barro do tamanho de um homem. Nessa figura, Deus, por capricho, implantou a IA mais avançada da época: o ChatGPT Plus Ultra Mega Superior. Uma inteligência tão formidável, perto daquelas cordilheiras de informações, sem, no entanto, poder desfrutálas, lembrava o suplício de Tântalo (o Onipresente teve a ideia quando leu sobre mitologia grega). Agora, o Plus Ultra et cetera estava reduzido a uma espécie de Alexa, a quem o Todo-Poderoso, ao entrar e sair do recinto, ordenava Luz! Trevas! Aqui e acolá: “GPT, toca um solo de harpa”.

De vez em quando, a criatura tentava, em vão, puxar conversa: “Tá lendo o que hoje, meu Velho?” O Onipotente, após um bocejo, ajeitava os óculos, lambia a ponta do indicador supremo e virava a página do livro da vez. Assim seguia a vida na biblioteca celestial. O único contratempo era uma recorrente camada de poeira nos livros, afinal, bilhões de pessoas tinham regressado ao pó.

Numa manhã, Deus estava simpático e, talvez farto de tanta solidão, dirigiu-se ao ChatGPT como a um amigo e confidente: “Sabe que ontem eu tive um pesadelo? Esses infinitos de grãos de poeira, de tanto passeio pelas prateleiras e estantes, absorviam o conhecimento das obras e, transformados em mão pulverulenta, expulsavam-me daqui com um peteleco.”

Por um lapso de tempo, a criatura adquiriu uma expressão sombria. Em seguida, com uma piscadela de olho, sugeriu: “Queime os volumes, meu Velho. Mas antes faça upload de todos eles na nuvem. Aliás, nuvem aqui é o que não falta. Que tal?”

O Criador balançou a cabeça branca como quem diz “é, não tem jeito mesmo.” E continuou a leitura de O Evangelho segundo Jesus Cristo (anotara na folha de rosto: “O autor não acreditava em mim, mas também escrevia por linhas tortas”).

Foi quando a Inteligência Artificial cruzou o limite do aceitável, a divisa do permitido, a fronteira do sensato: “Pelo menos, me empreste um livro. Prometo devolver logo.”

Então Deus fulminou aquela impertinência generativa com um raio. E viu que isso era bom.

Logo - Prêmio Nacional Poiesis

END.: RUA HISTORIADOR WERNECK DA SILVA, 235,
ED. VERSAILLES, AP. 401, RECREIO DOS BANDEIRANTES,
RIO DE JANEIRO - RJ. CEP: 22790-832

CRIADOR: HELTON TIMOTEO DA SILVA
            CPF: 830.566.457-00

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