Jesiel Soares

Minibiografia
Jesiel Soares é doutor (Ph.D.) em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa na interface entre Linguística e Psicolinguística. Professor efetivo do Departamento de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), concilia a docência com uma intensa atuação nas artes, transitando entre literatura, teatro e música.
Como ator, participou de diversas montagens teatrais, com destaque para Erêndira(2025), apresentada em Ouro Preto. Na música, é baterista da banda autoral Nave do Cerradoe um dos idealizadores do Intervalo das Quartas, projeto dedicado ao jazz e à música brasileira que reúne artistas e público na cidade.
Na literatura, escreve prosa e poesia. É autor dos romances Clavículas(Literando, 2021) e Rasguras(Caravana Grupo Editorial, 2026), além da coletânea de contos Odilon Morreu numa Terça (Opera Editorial, 2025), e participa de diversas antologias publicadas no Brasil.
Sua produção literária tem sido reconhecida em importantes concursos nacionais. Recebeu o 3º lugar no Concurso Internacional de Contos Pena de Ouro (2024), promovido pela Casa Brasileira de Letras, com o conto Sarapatel, além de ter sido finalista da mesma edição com Odilon Morreu numa Terça. Também conquistou o 3º lugar, na categoria Território Nacional, no 36º Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba (2025), com o conto Dend'água, somando ainda outras premiações e menções honrosas em concursos literários.
Texto Vencedor -
3º Colocado
A Engrenagem do Fuxico
O português brasileiro sempre me surpreende. E não estou nem falando daqueles velhos paradoxos corriqueiros, como o clássico “conheço, mas não sei quem é”, a luz que “dorme acesa”, ou (meu favorito) o sujeito “trancado do lado de fora”. Nada disso. O que realmente me desmonta é outra coisa, mais brasileiramente matreira: essa mania que temos de usar verbos que no sentido literal não fazem o que prometem, mas entram na frase atuando como protagonistas do enredo. Especialmente os verbos pegar e virar, esses danados impostores semânticos.
Outro dia, na fila da cantina, presenciei uma cena digna de análise fuxico-linguística: a moça atrás de mim, empolgada com o fuzuê fresquíssimo, disparou em alto e bom som para a amiga: “Menina, ela pegou e falou pra mim que não ia aceitar esse negócio dele sumir do nada”. E eu, com meu pão de queijo na mão, claramente interessado no mexerico, pensei: “Pegou o quê?”
Mas não havia tempo para raciocínio, pois o disse-me-disse tinha segunda temporada. Ela continuou, com mais indignação: “Aí, ela virou e falou pra ele que não era assim não, que ela tinha limite!” Lá fui eu de novo pensar: “Virou pra onde?”
E o melhor ainda estava por vir, até porque toda fofoca caprichada sempre tem reviravolta. A moça respirou fundo, abaixou o volume para aumentar o impacto e completou: “E aí, menina… ele teve a coragem de pegar, virar e falar que não ia pedir desculpa nenhuma, porque ele não tinha feito nada de mais!” E eu quase deixei o pão de queijo cair.
O homem pegou, virou e falou. Um triplo carpado sintático. Um combo inceptivo que ferveu minha mente, já zonza do malabarismo verbal.
É aí que percebo a genialidade do português brasileiro: inventamos um termo-gatilho de fuxico. Esses pegar e virar deixam de ser ações e viram alerta narrativo de treta: a partir dali, firme o ouvido, porque lá vem o tranco da história e o caldo vai entornar. A fofoca brasileira não acontece do nada, ela se arma em um alarde performático.
Enquanto isso, eu fico imaginando um manual inteiro dedicado às pequenas novelas do cotidiano: a gramática do “foi e fez”, do “larga mão disso”, do “vem e me solta essa”.
O brasileiro não descreve a ação, ele narra a energia cinética do acontecimento, o pulo discursivo, o clique dramático. E o mais bonito? Ninguém estranha. Já entendemos que esse pegar e esse virar não servem para pegar nem virar, servem para temperar. É o dendê da frase.
Talvez um dia alguém decida organizar tudo isso num tratado: “Breve Compêndio da Engrenagem Fofocal Brasileira”. Eu, com certeza, iria pegar, virar e comprar. Mas até lá, sigo
escutando, intrigado e encantado, cada vez que alguém nas cantinas e cantinhos do Brasil pega, vira e fala.
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