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Alexandre Pamplona

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Minibiografia

Segue a biografia de um cigano mundano: formado em um distante e esquecido curso de Arquitetura e Urbanismo do qual levei incontáveis lições para a vida – nenhuma delas sobre arquitetura ou sobre urbanismo – eu conquistei meu espaço no mercado das palavras ao correr atrás da tradução e do jornalismo como ofício. Com orgulho de nutrir uma carreira em não ter uma carreira, sigo os sinais que só as pessoas meio malucas conseguem enxergar. Por acaso, destino, uma sorte descomunal ou apenas por ser meio maluco mesmo, até agora esses passos me recompensaram com experiências incríveis e a vontade de contá-las através da escrita para todas as pessoas que me emprestam um pouco de sua atenção e me permitem compartilhar parte do meu olhar – sempre acompanhando uma cerveja, um café ou a coincidência dos encontros com os quais o universo me presenteia.

Texto Vencedor - 

2º Colocado

Aguardente por Segundo

O homem não entende o tempo.


Por sermos fadados a uma vivência orgânica, baseada cada uma em si e todas dotadas dos mesmos defeitos perceptivos em relação ao espaço temporal que permeamos, nós, os seres humanos, compreendemos o tempo só até aonde a carne dura – e como essa carne dura tão, mas tão pouco para que, sob suas limitações, sejamos espontaneamente capazes de assimilar deste tempo seu átimo quinhão. 


Mas nós não somos culpados por isso. Como compreenderíamos a exatidão de um momento que quase não existe se as palavras que falamos, apesar de irrefreáveis, não são entregues no ponto exato do tempo em que são ditas? Como entenderíamos o imediato se nem a luz, cuja origem e o destino nossos olhos não conseguem separar, viaja imediatamente? Como saberíamos quanto tempo é o tempo de nada se até nas nossas reações mais bestiais, baseadas em sentimentos ditos nascidos em ímpeto, os disparos elétricos de nossos neurônios trabalham, a níveis moleculares, de forma tão lenta quanto catastrófica? Como captaríamos o instante se, como prova cabal de nossa incapacidade para tal, o macarrão instantâneo demora três minutos para ficar pronto? 


Não existe em nossa propriedade a precisão para determinar quanto é, com exatidão, um segundo. Julgamos, com base em contadores artificiais, mas o espaço de tempo em si, promotor verdadeiro de quando este segundo começa e quando ele termina, perde-se em meio a tantas outras contagens que nosso cérebro é incapaz de interpretar. Narra-se com sentimento o que são momentos e tais confissões, paradoxais por serem, em seu cerne, sobre a química e não a física, erram ao contar batidas do coração, passos a passos ou até suspiros como fontes confiáveis de qualquer medida – e informação – que seja. 


Nossa existência estaria então submetida à condenação das leis pantomnésicas não escritas, porém talhadas na tábula rasa de nosso código genético – demorasse o tempo que fosse entre o nascimento do primeiro indivíduo moderno como nos entendemos e a inevitável catarse vivenciada pelo último, no ponto final da existência humana – de perdurar sem demonstração natural alguma de que a carência temporal do súbito, como momento, de fato, pudesse sequer ser. 


Até que, em 1841, a primeira garrafa da cachaça Ypióca foi destilada. 


Foi então que a mente coletiva da humanidade, o estado de pensamento que tudo permeia, descrita em suas diversas facetas por muitos nomes em alemão que variam desde zeitgeist até schadenfreude, pariu de si própria o preparo para absorver a noção de que é possível haver algo passível de acontecer em um aspecto singular de tempo tão breve quanto quimérico. 


Instantaneamente. 


Para aquém da criação da aguardente em si, a família responsável pelo nascimento da Ypióca gozou de inúmeras conquistas ao longo dos séculos seguintes, que marcariam a involução do produto como consequência da tentativa de mantê-lo competitivo em um antro comercial já dominado por incontáveis grandes nomes da cultura de Minas Gerais, dentre as quais duas se destacam: uma crucial colaboração para a dieta dos estudantes universitários da década de 1970 em diante – promovendo, concomitante e consequentemente, a erradicação de suas floras estomacais – e a descoberta de algo até então incompreendido por toda uma espécie dita senciente, versada em sentidos mil, cada um menos óbvio que o outro; algo que jazia oculto na essência da teoria de uma quarta dimensão que até ali se tratavam apenas disso: uma teoria e uma dimensão. 

Porque é no exato ponto em que qualquer semblante de Ypióca transfere o menos significativo código biológico de sua composição etílica pra alguma célula que tenha sequer traços de funcionalidade semelhantes aos de uma papila gustativa que acontece; 


A eternidade do medo presente no susto, antitética por não durar quase nada. 


A intenção que antecede o primeiro movimento de um piscar de olhos. 


O ímpeto do ímpeto fazer-se, antes mesmo de sê-lo. 


Interrupção motora; prerrogativa instintiva; 


A consciência do erro. 


Impulso e hesitação. 


Supernova. 


Instante. 


Naquela desigual pausa clarividente que, em prática, inexiste; quando a Ypióca toca a sua língua, você se arrepende instantaneamente. 


E nós, como seres humanos que somos, podemos não entender nada sobre o tempo, os momentos ou um instante. 



Mas como entendemos sobre arrependimentos.

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