Luam Albuquerque Coelho de Almeida Morais

Minibiografia
Luam Morais é poeta, ator, músico e compositor. Atua profissionalmente nas artes há mais de duas décadas, desenvolvendo uma produção autoral que transita entre literatura, música e teatro, sempre tendo a poesia como eixo central de sua criação.
Filho de Bola Morais, dos Novos Baianos, cresceu em um ambiente de intensa convivência artística, experiência que marcou sua formação estética. Ao longo da carreira, lançou discos, realizou espetáculos e desenvolveu parcerias com artistas como Luiz Melodia, Edgard Scandurra, Walter Franco e Luiz Galvão, consolidando uma trajetória em que diferentes linguagens dialogam continuamente.
Mantém produção poética há mais de trinta anos. Sua escrita transita entre o cotidiano, a espiritualidade, a reflexão existencial e a crítica social, buscando despojar a experiência de seus artifícios para alcançar seu núcleo mais humano. Nesse percurso, alia alta densidade imagética, ritmo e uma voz radicalmente exposta.
Vencedor de prêmios literários, prepara o lançamento de Nu Abismo (Ciranda Lunar), obra que organiza três décadas de escrita em uma única arquitetura poética.
Instagram: @poetaluammorais
TikTok: @poetaluammorais
Spotify: Poeta Luam Morais
Texto Vencedor -
1º Colocado
Animal Branco
A noite estoura como um tímpano.
Não há céu —
há uma carne aberta sobre os telhados.
O chão sua um leite pálido.
Os muros respiram mofo e vigília.
Algo enorme rasteja na claridade
como um bicho sem pálpebras.
Não tem rosto.
Tem exposição.
As pessoas fecham as cortinas
como quem fecha caixões.
Mas a luz entra pelos pregos,
pelas fechaduras,
pela gengiva.
Os espelhos não devolvem imagem.
Devolvem atraso.
Devolvem aquilo que foi feito
quando ninguém estava olhando.
Há uma pulsação no alto
que não é estrela,
nem deus,
nem farol —
é um osso aceso.
Quem sustenta o olhar
ouve o próprio nome sendo desossado.
As árvores ficam translúcidas.
Vê-se a seiva subir
como culpa que não encontra boca.
Os telhados tremem.
Os rios ficam rígidos.
Os relógios mastigam a própria língua.
Não existe sombra suficiente.
As mãos mostram o esqueleto antes do gesto.
Os beijos exibem ferrugem nas dobradiças.
Os sonhos têm cheiro de lâmina molhada.
No centro da sala
uma criança sobe na mesa.
Ela segura uma lâmpada quebrada
como quem segura um coração arrancado.
Sorri.
Escolhe.
O mundo inteiro prende a respiração.
Eu não.
Eu subo também.
Mordo o osso aceso do alto
até que ele sangre claridade dentro da minha garganta.
Não cuspo.
Engulo até o fim.
E quando a luz tenta sair pelos meus olhos,
eu os fecho
com os dedos.
%2009_03_18_395d971d.jpg)