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Bruno Beloti de Freitas

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Bruno Beloti nasceu em 19 de junho de 1980, em São Paulo, e vive em Serra Negra (SP). É formado em Processamento de Dados e, desde 2007, trabalha como servidor público estadual, uma atuação sem nenhuma relação com a literatura. Publicou o primeiro livro em 2004, sob pseudônimo, e duas décadas depois retomou os livros autorais, relançando essa narrativa autobiográfica em edição revista com o título Deixa a Luz Acesa. Na ficção infantojuvenil, estreou com Charlie Gliese e o Planeta Terra, primeiro volume de uma pentalogia de ficção científica que também ganhou versão em audiolivro, e em 2026 publicou Manual para Desaparecer e outras regras para o ensino médio. No mesmo ano, conquistou o primeiro lugar na 2ª edição do Prêmio Nacional Poiesis de Literatura com o conto Onde o Mundo Rasga, foi premiado no Prémio Literário Padre José Júlio Esteves Pinheiro, em Portugal, com A Última Pedra do Caminho, e no 5º Concurso Literário Município de Carlos Barbosa, com Os Biscoitos Redondos à Esquerda. Publica ainda contos e poemas em antologias e revistas, transitando entre a ficção científica, o terror e a fantasia. Em sua escrita, cria personagens que enxergam o mundo de formas diferentes, assim como ele próprio, encontrando nas pequenas estranhezas do cotidiano o ponto de partida para suas histórias.


Texto Vencedor - 

1º Colocado

Onde o Mundo Rasga

Contam que houve um tempo em que o mundo adoeceu.

Não foi uma guerra que trouxe o fim, nem a fúria de um rei ou a marcha de exércitos sobre campos de trigo. Foi algo mais silencioso. A terra simplesmente parou de dar. As colheitas murcharam antes de nascer, os rios encolheram até restar apenas o barro escuro de seus leitos, e o gado tombou nos pastos com os olhos abertos, como se tivesse morrido de espanto. Os sábios de cada reino procuraram respostas nos livros, nos astros e nas entranhas dos últimos animais. Não encontraram nada. O mundo morria, e isso era pior do que qualquer catástrofe repentina, porque a esperança insistia em permanecer, fina e cruel, entre cada manhã que ainda amanhecia.

Foi nesse tempo que nasceu Erickarion dos Ventos de Kiryn, ou talvez não tenha nascido nesse tempo. As lendas discordam. Algumas dizem que ele já caminhava pelo mundo havia muitos anos quando a terra adoeceu. Outras juram que ele veio ao mundo no exato dia em que a última fonte de Kiryn secou. Mas todas concordam no que importa: Erickarion caminhava só.

Não por escolha dos outros. As pessoas de Kiryn não o expulsaram, não o exilaram, não o marcaram com ferro nem lhe viraram as costas por maldade. Apenas não sabiam como alcançá-lo. Erickarion ouvia o mundo numa frequência que não pertencia a ninguém mais. Falavam com ele, e suas palavras pareciam chegar com atraso, como se viessem de muito longe. Ele respondia, quando respondia, de formas que pareciam estranhas, verdadeiras demais, ou precisas demais, ou simplesmente fora do ritmo que as conversas exigem. Com o tempo, as pessoas passaram a falar sobre ele em vez de falar com ele. E Erickarion, que nunca havia entendido bem a diferença entre solidão e silêncio, seguiu adiante.

Foi assim que chegou ao castelo.

Erguia-se no alto de um morro sem nome, contra um céu da cor de osso velho. Erickarion o avistou antes do pôr do sol, ou do que restava dele, já que havia meses o sol nascia cansado e se punha com pressa, como se também estivesse morrendo. As torres eram quatro, mas apenas duas ainda sustentavam seus telhados. As muralhas tinham a cor da ferrugem, e em vários trechos haviam cedido para dentro, como costelas partidas.

Ele se aproximou devagar. Não por medo. Erickarion raramente sentia medo da forma como os outros sentiam, aquele aperto no peito, aquele impulso de recuar. O que ele sentia diante do desconhecido era outra coisa, uma espécie de peso nos olhos, como se seu corpo inteiro quisesse processar cada detalhe antes de permitir o próximo passo. E havia muitos detalhes.

O portão principal estava aberto. Não arrombado, aberto. Os gonzos de ferro ainda seguravam as dobradiças, e as portas de carvalho, embora inchadas pela umidade de anos sem cuidado, permaneciam nos seus trilhos. Alguém as havia deixado assim. De propósito.

Erickarion contou os degraus da entrada. Dezessete. Notou que o terceiro e o décimo primeiro estavam rachados no mesmo ângulo, como se o mesmo peso os tivesse partido. Notou o musgo entre as pedras, verde-escuro na base, quase negro no alto, o que significava que a umidade subia, não descia. Notou que o cheiro era duplo: pedra velha e algo mais. Algo adocicado, que não pertencia a ruínas.

Entrou.

O salão principal se abria como a caixa torácica de um animal imenso. O teto, onde ainda existia, mostrava restos de afrescos que talvez tivessem sido bonitos, rostos, mãos estendidas, algo que podia ter sido um sol ou uma coroa. O chão de pedra estava coberto

por uma camada fina de poeira, e Erickarion percebeu, antes de qualquer outra coisa, as pegadas.

Muitas. De tamanhos diferentes. Todas na mesma direção.

Seguiu-as.

Cada passo ecoava duas vezes, uma no chão, outra no teto, e o som voltava ligeiramente diferente, como se o castelo devolvesse uma versão alterada de cada ruído. Erickarion não gostava daquele eco. Fazia seus dentes cerrarem. Mas seguiu.

As pegadas o levaram até uma câmara menor, no fundo do salão, atrás de uma porta que já não existia mais. Ali, o cheiro adocicado era forte. E ali, no centro do cômodo, Erickarion encontrou duas coisas.

A primeira era um corpo. Um homem, talvez jovem, talvez nem tanto, a decomposição fazia essa distinção impossível. Estava sentado contra a parede, com as mãos no colo, como se tivesse escolhido aquela posição para morrer. Entre os dedos ressecados, um pedaço de pergaminho.

A segunda era o cajado.

Apoiado na parede oposta, sozinho, vertical, sem nada que o sustentasse. Um cajado longo, da altura de um homem, feito de um material que não era madeira nem metal nem osso. Era escuro, havia algo dentro dele, uma profundidade, como olhar para a água de um poço sem fundo. No topo, onde a madeira de um cajado comum se curvaria, havia uma esfera que não refletia a luz. Absorvia-a.

Erickarion não tocou em nada. Primeiro, leu.

O pergaminho dizia, em letras que tremiam:

"O Cajado do Véu escolhe. Se não fores o escolhido, que este seja o teu último gesto. Não chores por mim. Eu sabia. Todos nós sabíamos."

Erickarion leu três vezes. Na primeira, processou as palavras. Na segunda, a estrutura. Na terceira, o que não estava escrito, aquele "todos nós" significava que havia outros. Muitos outros. E que cada um havia morrido da mesma forma, sentado, com as mãos no colo, com a mesma calma terrível de quem aposta tudo e perde.

Ele olhou para o cajado.

O cajado… de alguma forma, olhou de volta.

Contam que o Cajado do Véu existia desde antes dos reinos. Antes das estradas, antes das muralhas, antes dos primeiros nomes. Alguns diziam que havia sido forjado no instante em que o mundo decidiu existir, e que, por isso, carregava em si tanto a força da criação quanto a fome da destruição. Outros diziam que não havia sido forjado por ninguém, que simplesmente estava ali quando tudo começou, como uma pergunta que ninguém havia feito.

O que todas as histórias concordavam era o seguinte, o cajado chamava. Não com palavras, não com som, mas com uma espécie de gravidade. Quem estivesse perto o suficiente sentia o peso mudar, o ar ficava mais denso de um lado, como se o próprio espaço se inclinasse na direção dele. E era preciso uma força enorme para não se inclinar também.

Erickarion sentiu.

Sentiu da sua maneira, que não era a maneira de ninguém. Para ele, não era um chamado. Era uma nota. Uma única nota grave, abaixo do que os ouvidos deveriam captar, vibrando em algum lugar entre o estômago e a base do crânio. Ele conhecia aquela sensação, acontecia quando o vento mudava de direção antes de uma tempestade, ou quando alguém mentia perto dele sem que ele soubesse explicar como sabia. Seu corpo reconhecia coisas que sua mente ainda não havia nomeado.

A nota ficou mais forte.

Ele estendeu a mão.

E tocou.

O que aconteceu a seguir, as lendas descrevem de formas diferentes. Algumas falam em luz. Outras, em escuridão. Outras ainda dizem que não houve nada visível, que tudo aconteceu por dentro, onde ninguém podia ver.

Erickarion sentiu o cajado esquentar sob seus dedos. Não queimava. Era o calor de algo vivo, como segurar um pássaro no oco das mãos e sentir o coração minúsculo batendo contra a palma. Por um instante, apenas isso, calor e pulsação.

Depois, as vozes.

Não vieram de fora. Não vieram de cima, nem das paredes, nem do corpo sentado contra a pedra. Vieram de dentro do cajado, subindo pelo material escuro como água que encontra uma fresta, atravessando a palma da mão, o pulso, o antebraço, até se instalarem na cabeça de Erickarion como se sempre tivessem morado ali.

A primeira voz dizia: não.

Outra: larga.

Uma terceira não dizia nada. Apenas chorava.

Depois vieram outras. Dezenas, talvez centenas, todas ao mesmo tempo, todas em volumes diferentes, como uma multidão trancada num salão pequeno demais. Erickarion cerrou os dentes. Seus olhos se fecharam com força. Cada voz tinha uma textura diferente, ásperas, lisas, úmidas, cortantes, e ele as sentia como sentia o tecido errado de uma roupa contra a pele, aquela agressão invisível que ninguém mais entendia.

Mas ele não largou.

Porque entre todas aquelas vozes, todas aquelas texturas, Erickarion fez o que sempre fazia quando o mundo ficava excessivo, procurou o padrão.

E encontrou.

As vozes não eram aleatórias. Havia uma ordem, uma sequência escondida sob o caos. As mais antigas estavam no fundo, quase inaudíveis, comprimidas pelo peso das que vieram depois. As mais recentes eram as mais altas, as mais desesperadas. E todas, sem exceção, contavam a mesma história em palavras diferentes, tinham tocado o cajado, tinham sido recusadas, tinham morrido ali, naquela câmara, sentadas contra aquela parede.

Todas, menos ele.

O cajado pulsou mais forte. E as vozes, como se percebessem que ele ainda estava de pé, que ainda respirava, que ainda era, mudaram.

O tom mudou primeiro. O desespero deu lugar a algo mais perigoso, admiração. Depois, reverência. Depois, algo que Erickarion nunca havia ouvido direcionado a si mesmo, desejo de agradar.

Tu és o escolhido, disseram as vozes, agora em uníssono, agora com a suavidade calculada de quem sabe exatamente o que oferecer. O primeiro em tanto tempo. O primeiro que o Véu não rejeitou.

Erickarion abriu os olhos.

O cômodo havia mudado. Não fisicamente, as paredes ainda eram as mesmas, o corpo ainda estava ali, o cheiro adocicado ainda pairava. Mas agora ele via camadas. Como se a realidade fosse feita de páginas translúcidas sobrepostas, e ele pudesse ver através de cada uma. O castelo como era. O castelo como tinha sido, inteiro, iluminado, cheio de gente. O castelo como poderia ser.

Olha, disseram as vozes. Olha o que podes fazer.

E mostraram.

Erickarion viu campos verdes onde havia pó. Rios cheios onde havia lama. Viu cidades erguidas em minutos, colheitas brotando sob a ordem de um gesto, multidões alimentadas, curadas, salvas. Viu um mundo refeito. E no centro de cada visão, no trono de cada cidade,

no topo de cada torre, ele. Erickarion dos Ventos de Kiryn, aquele que nunca havia sido olhado de verdade por ninguém, agora visto por todos. Necessário. Amado. Temido.

Podes ser um deus, disseram as vozes. O mundo está morrendo porque ninguém teve a força de segurá-lo. Tu tens. Nós sentimos. O Véu te aceitou porque a tua mente é diferente. Onde outros se partem, tu dobras. Onde outros se perdem, tu organizas. A tua solidão não é fraqueza. É o molde perfeito para o poder absoluto.

E ali estava a armadilha.

Porque as vozes sabiam. Sabiam que Erickarion nunca havia sido visto. Sabiam que cada conversa que morria cedo demais, cada olhar que desviava, cada silêncio que ele habitava sem entender se era castigo ou natureza — tudo aquilo havia deixado marcas. E agora ofereciam exatamente o que essas marcas pediam, relevância. Pertencimento. Um lugar no mundo que ninguém pudesse tirar dele.

Erickarion ficou em silêncio por muito tempo.

As vozes esperaram. Sabiam esperar. Tinham toda a eternidade.

Ele olhou para o corpo contra a parede. Para as mãos no colo. Para o rosto que já não era um rosto. E perguntou, não às vozes, mas a si mesmo, da forma como sempre processava as coisas, desmontando.

Se o cajado dava poder, por que o mundo estava morrendo? Se outros haviam sido escolhidos antes, o que havia acontecido com eles? Se o poder era real, por que as visões mostravam apenas o que ele queria ver?

As vozes vacilaram. Foi rápido. Um tremor na frequência, uma rachadura na harmonia perfeita daquele coro. Quase imperceptível.

Mas Erickarion percebia tudo.

Contam que houve outros escolhidos antes de Erickarion. As lendas não guardam seus nomes, talvez porque tenham sido muitos, talvez porque nenhum tenha durado o suficiente para merecer um. O que se sabe, ou o que se imagina, é que cada um recebeu a mesma oferta. O mesmo poder. As mesmas visões de um mundo curado pela vontade de um único par de mãos.

E cada um aceitou.

E cada um, ao usar o cajado, alimentou o colapso que jurava combater. Porque o Cajado do Véu não criava, extraía. Cada campo que brotava verde drenava a vida de outro campo distante. Cada rio que se enchia roubava a água de nascentes que ninguém via. O poder era real, mas era um poder de transferência, de roubo, de desequilíbrio. E quanto mais o escolhido usava, mais o mundo precisava que ele usasse, até que o cajado e o portador se tornavam a única coisa que sustentava uma realidade cada vez mais frágil, um pilar trincado segurando um teto que já não deveria existir.

Até que o portador se partia. E o mundo caía mais um grau.

Erickarion entendeu isso não como uma revelação, mas como uma equação. As vozes haviam vacilado quando ele fez as perguntas certas, e naquela vacilação ele encontrou a forma da mentira, não pelo que diziam, mas pelo que evitavam. Nenhuma voz explicava por que o mundo ainda morria… nem mencionava o custo.

Ele desmontou cada promessa como desmontava qualquer coisa que não se encaixasse, com paciência, com precisão, sem raiva.

Tu não entendes, disseram as vozes, e agora o tom havia mudado outra vez. A reverência se desfazia. Por baixo dela havia algo mais antigo, mais faminto. O poder é real. O mundo pode ser salvo. Basta que o segures. Basta que o uses.

— Cada um que usou partiu o mundo mais um pouco — disse Erickarion.

Não disse em voz alta. Disse por dentro, no espaço silencioso onde organizava as coisas antes de soltá-las no mundo. Mas o cajado ouviu. O cajado ouvia tudo dentro dele.

Eles eram fracos, responderam as vozes, rápido demais. Tu és diferente. O Véu te aceitou porque a tua mente não se parte. Podes segurar o poder sem te perderes.

E ali, naquela câmara que cheirava a decomposição e a pedra antiga, Erickarion dos Ventos de Kiryn fez algo que nenhum escolhido havia feito antes.

Parou de ouvir as respostas.

E começou a ouvir o cajado.

Não as vozes. Não os espíritos, não as promessas, não o coro harmonizado de mortos que queriam companhia ou redenção. O cajado em si. O material que não era madeira nem metal nem osso. A esfera que absorvia a luz. A pulsação quente sob seus dedos.

E ouviu.

Sob todas as vozes, sob todas as camadas, havia algo mais. Uma vibração contínua, sem palavras, sem forma, antiga demais para ter idioma.

O cajado não era um instrumento.

Era um rasgo.

Uma ferida entre o que existia e o que não existia, entre o mundo e o lugar onde o mundo terminava. E por aquela ferida, há tempo demais, escorria algo que Erickarion só podia descrever como o contrário da vida, não morte, mas ausência. Vazio que se espalhava lentamente, contaminando tudo, secando rios, matando colheitas, esvaziando o mundo de dentro para fora.

O cajado não causava o colapso. O cajado era o colapso.

E cada escolhido que usava o poder apenas alargava a ferida.

Erickarion compreendeu o que precisava ser feito no mesmo instante em que compreendeu o preço. As duas coisas chegaram juntas, como sempre chegavam na sua mente, causa e consequência, problema e solução, lado a lado, sem espaço para ilusões entre elas.

A ferida precisava ser fechada. Não deste lado. Do outro. Alguém precisava levar o cajado para o Véu, o entre-lugar, o não-espaço, o avesso da realidade, e segurá-lo lá. Para sempre. Selar o rasgo de dentro, como quem costura uma ferida pelo lado de dentro da pele.

As vozes explodiram.

NÃO!

Centenas de vozes, todas ao mesmo tempo, todas em desespero. Porque elas sabiam. Elas sempre souberam. Cada espírito preso no cajado era um escolhido que havia percebido a verdade tarde demais, depois de usar o poder, depois de alimentar a ferida, depois de se perder. E agora estavam ali, presos entre os lados, sem conseguir fechar o que haviam aberto.

Tu não precisas fazer isso. Usa-nos. Usa o poder uma última vez. Há o suficiente para curar tudo, para recomeçar, para —

— Não há — disse Erickarion. Desta vez em voz alta. Sua voz era calma. Não a calma de quem não sente, mas a calma de quem já sentiu tudo e organizou cada sentimento no lugar onde deveria estar.

Segurou o cajado com as duas mãos.

As vozes gritaram. Imploraram. Algumas tentaram a raiva, ameaçando dores que ele não podia imaginar. Outras tentaram a ternura, prometendo que não estaria sozinho, que elas fariam companhia, que a eternidade não seria tão pesada se fosse compartilhada. Outras simplesmente choraram, como havia chorado a terceira voz, lá no início, aquela que nunca havia dito nada.

Erickarion ouviu todas.

E pensou, com a clareza que era sua e de mais ninguém, ele já conhecia a solidão. Não como conceito, não como medo, mas como terreno. Havia caminhado nela a vida inteira.

Sabia onde ficavam as pedras, onde o chão cedia, onde era possível se sentar e simplesmente existir sem esperar que alguém viesse. Os outros escolhidos haviam aceitado o poder porque não suportavam a alternativa. Erickarion não precisava do poder. Nunca havia precisado de que o vissem, não de verdade. Havia precisado apenas de que o mundo fizesse sentido.

E agora fazia.

Fechou os olhos. Respirou fundo, o ar ainda cheirava a pedra velha e àquele doce estranho que ele agora sabia ser o cheiro do Véu escapando para o mundo. Sentiu o cajado pulsar uma última vez contra as palmas das mãos, quente como um pássaro, vivo como uma pergunta.

E atravessou.

Não houve luz. Não houve som. Não houve dor. Houve apenas uma mudança de textura, como quando se fecha os olhos dentro de casa e se sabe, sem ver, que alguém abriu uma janela em algum lugar. O ar era diferente. O espaço era diferente. Erickarion abriu os olhos no entre-lugar e encontrou exatamente o que esperava: nada.

Não escuridão, não vazio, nada. A ausência de tudo que existe, e, portanto, a ausência de tudo que machuca.

As vozes se calaram. Uma por uma, como velas apagadas por um sopro manso, cada espírito preso no cajado encontrou finalmente o silêncio que havia procurado desde a morte. Restou apenas Erickarion, o cajado e o nada.

E pela primeira vez na sua vida, o silêncio não era solidão.

Era paz.

No mundo que Erickarion deixou para trás, contam que aconteceu assim:

Numa manhã sem data, o céu amanheceu de uma cor que ninguém reconhecia. Não era o cinza de osso velho que tinham aprendido a aceitar, nem o azul que os mais velhos juravam lembrar dos tempos de antes. Era algo no meio, um azul tímido, hesitante, como se o próprio céu estivesse reaprendendo a existir.

Uma semana depois, choveu.

Ninguém soube explicar. Os sábios que haviam procurado respostas nos livros e nos astros agora procuravam respostas para a cura, e tampouco encontraram. A terra simplesmente voltou a dar. Os rios voltaram devagar, como animais assustados que retornam a um lugar onde foram feridos. As colheitas demoraram mais, duas estações inteiras antes que alguém colhesse algo que pudesse ser chamado de alimento, mas voltaram.

E ninguém soube o nome de Erickarion dos Ventos de Kiryn.

Ninguém cantou seu nome. Ninguém ergueu estátuas. O castelo no morro sem nome desmoronou por completo naquele mesmo inverno, levando consigo o corpo do último que havia falhado e o pergaminho que já não precisava alertar ninguém.

Mas em Kiryn, aquela vila pequena, quase esquecida, de onde havia partido um rapaz estranho que ouvia o mundo numa frequência que não pertencia a ninguém mais, os mais velhos notaram algo.

O vento mudou.

Não muito. Não sempre. Mas em certas noites, quando o ar esfriava e o silêncio se instalava por completo sobre os telhados e os campos, soprava uma brisa que não vinha de direção nenhuma. Não vinha do norte, nem do sul, nem das montanhas, nem do mar. Vinha de um lugar que não estava em nenhum mapa.

E era morna. E era calma. E fazia os mais velhos de Kiryn sorrirem sem saber por quê.

Dizem que é ele.

Dizem que ainda guarda.


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