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Gisela Biacchi

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Minibiografia

Graduada em Direito e Mestre pela UFSM. Servidora pública federal. Premiada no Concurso Nacional MTUR 2022 - 1ª colocada; Premiada no Concurso Nacional Poiesis de Literatura anos 2025 (2ª colocada) e 2026 (3ª colocada) TOP 5 AILB-2025; Finalista Prêmio Laurel Verbum - 2025; Semifinalista em 2025 nos concursos Revista Bula e Outono em vários tons, ed. Typus; Livro do Ano pela Academia Brigadiana de Letras - 2022; Semifinalista no Prêmio Pena de Ouro anos 2020 e 2021; Semifinalista no Microconto de Ouro - 2020. Autora de dois livros Contos de Fome e de Sangue, Ed. Novo Século. link: https://a.co/d/0iLjFGVle A Horda: contos errantes, Ed. Medusa. link: https://a.co/d/0ifzhex3Participa em mais de 30 antologias no Brasil e em Portugal. Desenvolve trabalhos voltados ao neogótico. É associada à AGES, AILB e Casa do Poeta Brasileiro e é Acadêmica da Academia Santa-Mariense de Letras. Mantem o instagram literário: @gisela.biacchi

Texto Vencedor - 

3º Colocado

Talho no Couro

Naquele rancho cercado de pés de laranjeira, vivia o seu Dimas, com seus oitenta e cinto anos de histórias. A casa era de madeira, com janelas que ele gostava de deixar abertas durante os dias de inverno.

“Mas só quando o sol bate.” – dizia ele.

Na soleira da porta, havia uma escadinha e ao lado um engradado de madeira que outrora fora usado para acomodar uns tachos de leite. Hoje o cusco baio, chamado Sabugo, dormia acomodado em uns trapos amontoados no fundo do engradado.

Havia também um banquinho de madeira de três pernas e assento de couro, que o seu Dimas mesmo fez e há muito já vinha gasto de tanto uso. Puxava o banquinho nas tardes sem lida no campo pra matear sossegado, meditando sobre o nada. Trazia a chaleira de ferro e a pendurava no tripé sobre o fogo; ia cevando o amargo, aguardando quem chegava para ouvir o que o velho peão tinha para contar.

Ele se dizia capataz da estância. A casinha ficava próxima à sede da fazenda, que estava há muito abandonada. O dono faleceu sem deixar herdeiros e o seu Dimas foi ficando, tomando conta de tudo, guardando o patrimônio para um dia que alguém viesse reclamar. Mas ninguém se manifestava.

Dimas foi criança ali mesmo, filho de peão e de uma senhora, seu Bento e a dona Rosa, que vieram dos lados do Jacaquá. Foram se achegando, pediram trabalho e o encontraram ali na Estância do Bororé. O dono da estância estava precisado de ajuda, pagava bem, tinha um teto para oferecer e, muito importante, o homem era maragato, porque o seu Bento não trabalhava pra pica-paus.

Quando eclodiu a Revolução Federalista, nos idos de 1893, a maioria estava indignada com o controle do governo central sobre os estados. Seu Bento dizia que ninguém gostou da ideia de ter presidente da república cheio de poder, mandando em tudo, sem conhecer os gaúchos. Com o imperador era diferente, era melhor porque os estados tinham mais autonomia e se governavam conforme as necessidades. Ninguém entendeu o que fizeram com o Dom Pedro. O Silveira Martins tinha razão em tocar os pica-paus para bem longe do Rio Grande. A batalha foi perdida, mas a peleia ainda estava inflamada e em invernada de maragato federalista, não entra pica-pau republicano, seriam inimigos eternos.

Seu Bento contava como foi sanguinolenta a guerra civil, que a terra nunca teria visto tanto sangue derramado. Milhares foram degolados e ele mesmo, o seu Bento, testemunhou muito lenço branco ficar encharcado de vermelho. Dizia que tudo que se comia desse solo vinha

com sangue de gente e que a sangria fora tanta, que todos teriam que se acostumar com o gosto da guerra que tinham os assados, as ervas, as bergamotas.

Ensinou essas coisas para o Dimas, que se criou vivendo essas chamuscas entre maragatos e pica-paus. Quando já era rapazote, ganhou do pai um lenço vermelho macanudo, que usava nos fandangos e nos rodeios, amarrado em um nó de maragato. Dimas aprendeu com o pai a ser fiel ao campo, ao patrão, à lida e ao ideal federalista. Aprendeu também a degolar para quando fosse preciso e treinava no gado, quando o patrão pedia para carnear um.

Lá pelos trinta e tantos anos de Dimas, as tensões no Rio Grande estavam açodadas. Parecia que as histórias do pai estavam criando vida, porque os fantasmas dos republicanos não deixavam o poder de jeito nenhum, havia anos que eles estavam na presidência do Rio Grande. Perpetuavam-se mandato após mandato, e na primeira oportunidade que os maragatos tiveram de acabar com essa ditadura republicana, através das eleições, foram enganados.

Quando eclodiu a Revolução de 1923, Dimas já estava solito no rancho, o patrão era como se fosse o pai da peonada e foi para ele que Dimas pediu permissão para se unir às forças de batalha contra os chimangos.

Houve um cerco pelos lados de São Francisco de Assis onde Dimas se atirou sem freio contra o inimigo. Varou uns quantos com sua adaga, brigou que nem um bagual corcoveando contra a encilha, mas levou uns talhos também. Eram os maragatos contra os chimangos, antigos rivais e, após quase um ano de peleia, novamente o lenço branco venceu. Dimas ficou desacorçoado. Retornou pra estância com orgulho no peito e um cavalo que ganhara como reconhecimento pela atuação contra o inimigo. Já não podia trabalhar no campo; além das cicatrizes, ficou com um braço meio inútil de um talho que levou.

O patrão recebeu Dimas com um aperto de mão, analisando se dali para frente teria um encostado na fazenda, sustentado pelos outros e concluiu que Dimas ainda poderia montar, tocar o gado, fazer a ronda, afinal chegou da peleia a cavalo e, talvez, ainda pudesse carnear quando preciso.

Depois da paz pelo Pacto de Pedras Altas, a Estância do patrão ficou sem dar resultado. Teve que separar umas ovelhas para consumo de tropas e como era terra de maragato, perdedor na revolução, os chimangos da capital do estado não vinham fazer negócios. A escassez e o tempo foram moldando o patrão. A estância foi-se esvaziando, a gadaria apoucando, a peonada dando adeus pra buscar oportunidades perto da capital. Ficou o Dimas e o patrão.

Até que chegou o dia em que o patrão teve que se dobrar pros chimangos. Começou a receber esse pessoal nas marcações e mandava Dimas abater uma ovelha para o churrasco, quando fazia os negócios de venda de lã, charque e gado em pé.

Dimas ficou bem ressabiado com isso. Lembrava-se do pai que dizia pra ele ser fiel ao campo, ao patrão, à lida e ao ideal federalista. Agora sentia muita dificuldade de ser fiel ao patrão e à lida, porque se via trabalhando pra chimango e isso era inadmissível! Tentou conversar com o patrão, mas não teve receptividade. Ainda tinha aquela reverência respeitosa, mas agora Dimas achava que o patrão poderia virar a casaca de vez.

E não é que aconteceu isso mesmo? Certa feita, o patrão apareceu de lenço branco para receber uns visitantes. Dimas teve que olhar bem pra acreditar, o patrão recebeu aqueles chimangos e ainda mateou com eles. Dimas observava de longe, com um embrulho no estômago e raiva nos olhos. Dava seu suor no trabalho e deu seu sangue na revolução pra isso? Como o patrão pode trair o ideal federalista? Depois de tanta luta, tanto maragato morto e ferido nas revoluções contra esses ditadores republicanos!

No dia seguinte foi peitar o patrão, que disse para o peão que ele podia ir embora se quisesse, porque agora quem mandava ali era um chimango. Dimas sacou da adaga e degolou o patrão ali mesmo, como os maragatos fizeram na Revolução Federalista e repetiram na de 1923. O patrão estrebuchou até perder os sentidos. O peão então carneou o corpo, esticou o couro e fez dele um banquinho, no qual se senta até hoje e espera o tempo passar, mateando em frente ao rancho, acompanhado do Sabugo, seu cão fiel e companheiro.

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