João Víctor Fernandes

Minibiografia
J.V. Fernandes é formado em Letras (Inglês-Português) pela PUC-SP. Sua trajetória transita por tradução, fotografia, literatura e audiovisual, percursos distintos que convergem no mesmo desejo de explorar múltiplas formas de expressão criativa. Filho de um compositor e de uma cenógrafa, cresceu cercado por música, livros e cenários, aprendendo desde cedo a ver na arte não apenas um ofício, mas uma maneira de habitar o mundo. Nos últimos três anos, tem levado uma vida nômade, experiência que lhe oferece novos repertórios culturais e humanos e que se infiltra, inevitavelmente, em sua escrita.
Em 2025, iniciou a divulgação de seus textos literários e teve um conto publicado pela editora Comala no livro Contos em Miniatura, lançado na FLIP do mesmo ano.
Além de estrear na literatura contemporânea, coadministra a JF Cenografia e colabora em um projeto de videodança inspirado no poema “Lovers on Aran”, do poeta irlandês Seamus Heaney.
Texto Vencedor -
1º Colocado
Nestor
Às 23h51, quando eu tinha sete anos, nove meses e treze dias de idade, matei meu gato, Nestor, no quartinho que servia de despensa. Tal fato, embora enunciado com despropositada precisão, talvez não cause o mesmo impacto de frases como: “Esquartejei minha mãe às 10h33 no banheiro da sinagoga” ou “Estrangulei meu irmãozinho de dois anos nos fundos da padaria do Seu Manuel”. Eu não era como uma daquelas crianças inglesas: Bartlam, Venables ou Thompson. Mas estou convicto de que qualquer ato de violência perpetrado por mãos ainda pequeninas e, no meu caso, um tanto gorduchas, provoca a imaginação de curiosas formas.
Nestor era um gato de pelos longos, branco-acinzentados, com olhos verdes como esmeraldas. Foi um dos presentes que recebi na festa do meu sétimo aniversário, quando eu ainda era um jovem humano de pelos curtos, castanho-claros, e olhos negros como jabuticabas. Muito antes de mim, pertencera à minha tia-avó, uma viúva sem filhos cuja impressionante longevidade provocava, em seus parentes mais próximos, uma inquietação que oscilava entre a impaciência e a esperança. Para alívio desses herdeiros em potencial, ela finalmente sucumbiu alguns meses antes da minha festa, deixando, entre outras heranças menos desejáveis, um gato-fardo.
Como acontece com certos idosos, tanto humanos quanto animais, Nestor tornou-se uma presença incômoda, um estorvo que circulava entre os parentes, repassado de casa em casa como um móvel antiquado, rejeitado pelo exasperante desconforto que sua velhice despertava ou por, de certo modo, evocar o fantasma de uma mulher que sempre vivera à margem da família, reclusa num decadente palacete neocolonial.
Ele permaneceu nesse limbo até parar na casa de um dos irmãos da minha mãe, que, no dia da minha festa, deu-se conta de que se esquecera de comprar um presente para mim. Certamente movido pelo desejo sincero, ou desesperado, de me agradar, interrompeu a sesta do felino, amarrou-lhe uma fita colorida no pescoço e o enfiou numa caixa sem furos, acompanhada de um cartão de fundo de uma gaveta, no qual se lia um Happy Birthday de purpurina.
O pobre gato, sem entender sua nova sina, deve ter passado pelo menos duas horas mergulhado na escuridão daquela caixa, embalado pelos solavancos do carro e preso no trânsito caótico que, segundo meu tio, lhe roubou uma hora. Como soube depois, para tornar a jornada ainda mais memorável, Nestor entoou um lamento ininterrupto, uma autêntica ópera do desespero, que, entrelaçada ao concerto de buzinas e aos impropérios líricos dos motoristas, compôs a trilha sonora de um colapso nervoso coletivo.
Até sua chegada, meu aniversário resumia-se a uma enfadonha encenação: beijos molhados de tias semidesconhecidas, “feliz aniversários” protocolares, berros de crianças cujos nomes há muito esqueci e presentes que, na melhor das hipóteses, julgava medíocres. O peso do tédio só foi aliviado quando meu tio, com um olhar que simulava cumplicidade, apresentou o misterioso embrulho.
Ao abri-lo, meus olhos se iluminaram, meus lábios soltaram um grito de alegria e minhas mãos se precipitaram em direção àquela bola de pelos brancos, num abraço quase convulso. A intensidade foi tamanha que Nestor, atordoado pelo súbito aperto, soltou um miado estridente, arqueando o corpo num espasmo instintivo. Suas garras encontraram minha pele como agulhas, cravando-se no meu braço e peito. A dor foi imediata, lancinante, espalhando-se em ondas pelo corpo, mas, curiosamente, em vez de arremessá-lo, meu reflexo foi o oposto: segurei-o ainda mais firme. Por um instante, o tempo pareceu hesitar. O peso quente e trêmulo do pequeno corpo contra o meu, a vibração mínima de seu peito, a dor pulsante onde suas garras haviam afundado, tudo se mesclava numa sensação paradoxal de desconforto e êxtase. Ele se debatia, apavorado, e, ainda assim, eu podia sentir que, ali entre nós, havia algo belo e definitivo: um laço selado na surpresa mútua daquele encontro. Por fim, meu pai rompeu o enlace com um gesto brusco e atirou-o ao chão. Nestor disparou para algum canto escuro da casa. Permaneci parado, observando, sem chorar, o sangue escorrer em finos fios pela pele lacerada. Minha mãe logo veio em meu socorro, desinfetou os arranhões e, enquanto soprava promessas sobre o fim da ardência, lançou um olhar fulminante ao meu tio. Iniciou-se então uma discussão entre os dois sobre o absurdo que caracterizava dar de presente a uma criança um gato velho e ranzinza que, além de tudo, por conta de sua morte iminente, a obrigaria a antecipar uma daquelas “conversas sobre assuntos complicados”, nas quais os adultos fingem saber mais do que as crianças. Sentia-me culpado por minha desmedida demonstração de afeto. Então, enquanto os adultos se desentendiam, corri em busca de Nestor, esperando que, de algum modo, pudéssemos chegar a uma reconciliação. Encontrei-o alguns minutos depois, lambendo seu ventre com meticulosa dedicação. Ao me avistar, interrompeu os cuidados pessoais, retesou o corpo e me lançou um olhar de gelo. Julguei mais prudente recuar e respeitar seu espaço. Meus pais diziam que era apenas uma questão de tempo: o gato não me conhecia, precisava se acostumar comigo antes de se afeiçoar.
Nos dias que se seguiram, cada vez que voltava da escola, empreendia tentativas infrutíferas de aproximação. E, todas as vezes, sentia que ele me detestava, que minha presença lhe era tão indesejada quanto fora, um dia, a dos parentes que o descartaram. Comecei a suspeitar que, para ele, eu era apenas mais um desses donos provisórios, esperando o momento certo para se livrar dele. Se o surpreendia para acariciá-lo, quando não fazia apenas um movimento brusco projetando-se para longe de mim com as patas, contorcia-se, arranhava-me e mordia-me.
O único momento de trégua vinha com a fome. Nestor roçava entre minhas pernas, emitia miados quase ternos e, enquanto se alimentava, sua indiferença aos meus toques parecia, a meus olhos, uma forma sutil de consentimento. Quando a tigela esvaziava, ele ainda erguia o rosto por um instante e levantava o queixo, como quem solicita carinho num ponto até então inacessível. Todo esse ritual durava cerca de dois minutos. Nesse espaço de tempo, experimentava algo semelhante àquilo que, mais tarde, reconheceria no calor reconfortante dos amores correspondidos.
Mas mesmo assim, a frustração persistia, pois, em termos gerais, meus métodos de aproximação se revelavam pouco eficazes. Optei, então, por refinar minha estratégia, aproveitando-me dessa trégua instintiva que a fome impunha à sua habitual indiferença. Tudo começou com pequenos gestos. Durante semanas, alimentei Nestor com ainda mais regularidade. Passei a servi-lo pontualmente, criando nele a certeza de que eu era o fiel provedor de seus banquetes. Acrescentei pequenas iguarias à sua dieta: um pedaço de frango, um restinho de peixe.
Ele, é claro, não demonstrava verdadeira gratidão. Mas, além do perceptível aumento no diâmetro de seu ventre, notei que, aos poucos, já não considerava minha presença um ensejo para a fuga. Passou a tolerá-la em ambientes diversos, da mesma forma que se tolera uma sombra na parede. Ainda assim, nas raras vezes em que se deixava acariciar, lia em seus movimentos débeis e no seu miado frouxo algo próximo à má vontade, como se a breve concessão de carícias fosse um favor que me fizesse.
Certa noite, enquanto eu, agachado no chão da cozinha, lhe oferecia um novo acepipe, ouvi minha mãe comentar, quase rindo:
— É só um gato, filho. E já tão velhinho... No máximo, tem mais um ou dois anos pela frente.
Sua incredulidade diante da minha obstinação era explícita. Havia, supostamente, algo de desproporcional, talvez até inquietante, na devoção que eu nutria por um animal que, para ela, não passava de uma presença incômoda prestes a se dissipar no fluxo natural das coisas. Mas eu não via nossa relação nesses termos. Se o tempo de Nestor era curto, então cada pequena conquista se tornava, para mim, ainda mais valiosa.
Apesar de tudo, nenhum dos dissabores, por mais numerosos e constantes que fossem, fora tão mortificante quanto notar que, pouco a pouco, meu velho gato parecia tornar-se mais indulgente com a aproximação das visitas. Quando amigos dos meus pais, ou até outras crianças da minha idade, vinham a minha casa, Nestor, que já me concedia tão pouco de seu precioso tempo, lançava-se ao colo dos visitantes, ronronava, fechava os olhos, repousava como se estivesse entre iguais. Nesses momentos, ao fitar seus grandes olhos verdes, eu tinha certeza de que ele me desafiava, testava-me, zombava de minha disposição incondicional.
Ao contrário de tantos, eu não me importava com sua idade avançada, nem com o cheiro rançoso que impregnava seus pelos branco-acinzentados. Amava-o, apesar de suas excentricidades e enigmas. Há muito tempo eu deixara de esperar qualquer afeto em retribuição, mas ainda me feriam a frieza com que me observava, a maneira como mal suportava minha presença. Fiz tudo o que pude para conquistá-lo: ofereci comida, respeitei seu espaço, tentei decifrar seus humores. E, ainda assim, continuava sendo insuficiente.
Comecei a vivenciar esse pérfido jogo provocado por Nestor de formas até então inéditas. Primeiro, senti como se meu corpo fosse uma casca oca preenchida unicamente por um ar estanque, de chumbo. Depois, à medida que ruminava amargamente suas atitudes, passei a nutrir um ódio igualmente inédito. Um ódio que não era impulsivo, explosivo, mas algo mais sombrio, mais denso, uma matéria bruta e viscosa que crescia em silêncio, pulsando dentro de mim, tal qual um organismo próprio.
***
Cerca de meio ano após meu aniversário, um episódio causou considerável comoção no bairro. Envolvia um grupo de crianças, todas entre nove e doze anos, movidas, segundo afirmariam depois, com a mais cândida naturalidade, por um genuíno espírito científico, essa nobre inquietação amiúde denominada “curiosidade”. O experimento consistia em arremessar um gato de rua do terceiro andar do prédio onde moravam, na esperança de comprovar empiricamente duas máximas muito difundidas no folclore infantil: a de que gatos sempre caem em pé e a de que possuem mais de uma vida.
O resultado foi, para o assombro dos jovens acadêmicos, um sucesso parcial. O felino, embora visivelmente desconfortável com o teste, sobreviveu à queda praticamente incólume, limitando-se a um leve mancar que, longe de causar decepção, apenas instigou a capacidade de adaptação metodológica do grupo. Os pequenos cientistas decidiram então complementar a experiência com um segundo procedimento, bastante inspirado pela ciência de Hipócrates: imobilizaram as patinhas do paciente com talas feitas de palitinhos de sorvete e, em seguida, enfaixaram-no com a gaze que uma das crianças foi buscar em casa.
Foi nessa mesma época que compreendi que Nestor não era um gato comum. Eu não poderia ter expressado dessa maneira na época, mas, hoje, em retrospecto, vejo que sua repulsa por mim transcendeu o mero desinteresse; tratava-se, antes de tudo, de uma repulsa ideológica: eu era uma afronta à sua natureza altiva e independente, um pequeno tirano humano tentando exercer sua vontade sobre um espírito livre que jamais se curvaria.
Hoje também compreendo que o afeto que Nestor buscava dos visitantes não nascia de vínculo algum. Para ele, aninhar-se no colo de estranhos que nada exigiam ou esperavam dele tinha a mesma função prática-fisiológica de defecar na caixa de areia. Seu corpo buscava uma sensação passageira de conforto, assim como suas vísceras buscavam expulsar as fezes com movimentos peristálticos.
Nestor não se dobraria ao meu afeto, nem permitiria um instante de genuína proximidade. Nosso laço era um nó frouxo, um vínculo artificial sustentado por dois minutos diários de falsa ternura durante as refeições. Porém, o que ele jamais poderia antecipar, até porque sua condição de felino inegavelmente lhe impunha certas limitações cognitivas, era que, embora ainda jovem, eu possuía um instinto de autopreservação tão implacável quanto o silêncio que segue à última respiração.
A decisão já estava tomada havia dias. Restava apenas o momento certo. Meus pais se recolhiam por volta das dez e meia, mas eu sabia que o momento exato para colocar meu plano zoocida em ação seria à meia-noite. Havia algo sobre “meia-noite” que me atraía, um caráter simbólico e sonoro que não saberia explicar. Na noite escolhida, contudo, minha ansiedade cresceu a tal ponto que cada tic-tac do relógio parecia um chamado à ação. A tensão me devorava. Sem conseguir controlar meu desassossego, antecipei o plano em alguns minutos.
Na penumbra da despensa, preparei a isca: um pedaço generoso de frango cru, recém-saído da geladeira. Nestor veio sem hesitação, movido pelo estômago, alheio à origem da generosidade que o alimentava. Eu o deixei comer. Observei com paciência cada mastigada, sentindo nas pontas dos dedos o leve tremor da expectativa enquanto ouvia o barulho úmido do frango cru deglutido. E então, num breve intervalo, quando ele lambeu os beiços, satisfeito, minhas mãos avançaram e o agarraram pelo pescoço, os dedos fechando-se ao redor da garganta felpuda. Ainda conseguiu emitir um miado curto antes de começar a se debater, suas patas tentando se fixar em alguma coisa sólida à medida que eu o suspendo pela traqueia. As garras cortaram a pele dos meus braços, mas a dor era inócua. Segurei firme, experimentando o calor pulsante da vida que é forçada a escapar do corpo. Seus olhos verdes, sempre tão frios, se arregalaram em um último vestígio de desespero. Durou menos do que eu imaginava. Nestor amoleceu e os membros antes retesados cedem em um espasmo final. Mantive as mãos ali por mais alguns segundos, só para ter certeza.
Quando o soltei, parecia um fantoche. Pouco depois, tornei a pegá-lo e o sopesei, como se tentasse estimar se a vida tinha algum peso físico. O verde das esmeraldas se tornara leitoso, e a forma como os membros e a cabeça pendiam moles quase me fez rir. A fonte de tanta angústia agora não passava de uma patética pelúcia. Essa ausência, essa mudança repentina, a transição entre a vida e a morte e os segundos que a sucedem: tudo parecia exalar um senso de ridículo. Constatei, ali, que o que separava o tudo do nada era apenas a pressão não muito intensa de alguns dedinhos gorduchos sobre um tubo de carne.
Fiquei ali por alguns instantes, observando-o, esperando sentir algo. Qualquer coisa profundamente humana. Culpa, alívio, alegria, horror. Mas nada aconteceu. O corpo inerte de Nestor repousava em meus braços e apenas um vago tédio se insinuava à flor de minha consciência…Ou, talvez um vazio, como se eu contemplasse a superfície de um lago onde uma pedra tivesse sido lançada, mas que, de forma absurda, permanecesse intacta, sem ondulações.
Refletindo sobre a eliminação de vestígios do crime, considerei prudente usar mangas compridas nos dias seguintes: os arranhões poderiam suscitar perguntas indesejadas. Em seguida, coloquei o cadáver num canto escuro da sala de estar. Sabia que, ao encontrá-lo, meus pais atribuiriam sua morte à velhice, jamais suspeitando dos ardis zoocidas de seu filho de sete anos.
Mas, à medida que a madrugada avançava em seu torpor insone, comecei a sentir algo diferente. Uma espécie de desconforto fervilhava em minha mente infantil. Havia bagunçado algo no mundo. O que ocorrera naquele quartinho assumia uma aura quase solene. Fora meu momento de maior intimidade com Nestor. E, quem sabe, o mais íntimo que já tive com outro ser. Afinal, meu papel de “assassino mirim”, de “perpetrador de um ato violento”, ou qualquer outra designação empapada de moralidade, tornava-se banal diante da grandiosidade de meu papel como facilitador e testemunha da dissolução da própria vida, como intermediário entre o efêmero e o irreversível. Meu gesto, essa recusa à realidade humilhante e confusa dos meus próprios sentimentos, despertou em mim não somente a noção de minha própria fragilidade, mas a de todas as coisas. A partir de então, meu universo, antes sólido e exato, adquiriu novos contornos, espessuras e relevos.
Querido Nestor, envio-lhe, até o mundo dos mortos, um miau solidário, lamurioso, um miau-elegia, daqui, do fundo desta minha caixa sem furos onde a vida adulta me aprisionou.
%2009_03_18_395d971d.jpg)