Aloísio Romanelli

Minibiografia
Aloisio Romanelli nasceu em Belo Horizonte (MG), cidade onde reside atualmente. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais e hoje atua como psiquiatra. Integra a equipe de poetas do Portal Fazia Poesia, um portal independente de poesia contemporânea. Relances de mar e montanha, publicado em 2024 pela editora Mondru, é seu livro de estreia. Pela mesma editora , participa da antologia Cartografias Poéticas da Ausência. Foi um dos vencedores do 21º prêmio literário Poesia Agora, organizado pela editora Trevo.
Texto Vencedor -
1º Colocado
Das Ruas
As ruas exibem em
repetição sua pele de
asfalto seus tantos
meios-
-fios
hidrantes
veículos
pedestres
simulando alguma
possível
organização com suas
retas e fluxos ordinários
revezando-se em
interminável
ciclo
as ruas e sua
estrutura
giratória dando
vazão às incontáveis
obrigações do dia
dos que exercem
suas funções
ciclicamente
passando sem
grandes obstáculos
apenas alguns
entraves na
estrutura das ruas
como homens
descalços
que não passam
permanecem
presos aos passeios
abrigando-se
nas marquises
em malocas
debaixo dos viadutos
esgueirando-se em
meio aos carros ou
mesmo deitados
no chão
imóveis
olhos fechados e
membros abertos
num sono
não humano
um estrangulamento em
repouso uma quase
morte
sob o Sol abafado
em seu calor fumacento
pulsando no asfalto.
Este sono
contudo
não oferece grandes
riscos à irrefreável
roda das ruas
acordados talvez
esses homens
atravancariam um pouco
ao pedir algum
trocado
contar alguma
história
de quase vida
ensaiar um
malabarismo
no soluço do trânsito
mas estáticos no chão
não chegam a ser
entrave
tornam-se
peça corriqueira na
mecânica da roda
soam como
os tantos
postes
bueiros
sarjetas
elementos
intrínsecos ao
girar das ruas
objetos de sua
artificial
rotação
insistentemente
perpetuando-se ao
longo das horas.
Em que momento
nos habituamos à
roda?
Em que ponto de
seu translado
ela se torna
inaudível?
Embora tão
repleta em
alaridos
inúmeros sons de
máquina em
movimento
incômodas
buzinas
alarmes
apitos
gritos
toda sorte de
barulhos
contínuos ou
intermitentes mas
ainda assim
aderidos ao
mecanismo
das ruas
tornando-se
parte da silente
roda sem qualquer
interrupção sem
qualquer
abalo à sua
dinâmica
arrastando tudo
incessante
mesmo com
os inquietantes
sons que cruzam
por todo lado
despudoradamente
tantos sons que
deveriam romper
a estrutura
tantos homens
descalços que
deveriam
romper a
estrutura
romper a
muda
repetição da
roda ou
ao menos
inventar algum
modo de
perturbar o
vertiginoso
silêncio
das ruas.
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